Scott Matthews – Passing Stranger

Proveniente de Wolverhampton, na Inglaterra, Scott Matthews é um cantautor cujo talento e a sorte decidiram que iria deixar uma marca no panorama musical independente. Pouco a pouco, crescendo com a guitarra nas mãos e os Led Zeppelin no gira-discos, Matthews cria o seu álbum de estreia Passing Stranger. Sem saber, esta seria uma passagem memorável.

Seguindo num trilho que tanto tem de rock como de blues, folk ou world music, a música de Scott Matthews traz-nos à memória Elliott Smith, Jeff Buckley, Nick Drake ou Ryan Adams, sem soar exactamente a nenhum deles. Pondo de lado o excelente trabalho da guitarra, tanto dedilhada, de acordes directos ou em versão slide, Passing Stranger está povoado por flautas, clarinetes, vibrafones e elementos orquestrais. Mas o complemento que mais se destaca é, sem sombra de dúvida, a tabla do indiano Sukhvinder Singh Namdhari. Em ritmos exóticos, tanto suaves como acelerados, as composições de Scott Matthews adquirem uma dimensão aprofundada, uma natureza mística e impregnante, com um intenso odor a incenso que se queima de nota em nota.

Apesar do extenso número de temas, dezassete no total, Passing Stranger reduz-se a pouco mais de onze músicas propriamente ditas. As restantes, divididas entre introduções, interlúdios e passagens subtis, poderão ser aquilo a que se chamam “fillers”, ou seja, composições criadas para encher o disco, para lhe dar corpo. Mas esta é uma designação algo pejorativa, principalmente se olharmos para o disco como uma obra plena e dotada de pormenores musicais com uma finalidade concreta. Como Matthews refere, o objectivo destes trechos está em oferecer ao ouvinte pequenas frases musicais com a sua própria beleza e identidade. Por outro lado, como o comprova “Blue In The Face Again” ou “Nylon Instrumental”, funcionam como uma boa técnica de interligação entre os ecléticos elementos musicais presentes no disco.

“Dream Song” é das faixas mais autónomas do disco, é um verdadeiro single. A guitarra ao alto e a bateria lado a lado com os padrões de percussão indiana ajudam Matthews a criar uma música sólida que facilmente se impregna no ouvinte. O refrão, se assim se pode chamar, mesmo desprovido de letra, é uma embalante melodia que acompanha as cordas orquestrais. Sem perder ritmo, “Fool’s Fooling Himself” mantém a mesma força, embora nos deixe num espaço mais terreno e concreto.

Num registo lo-fi, facilmente comparável a um José González perdido num deserto árabe, Scott Matthews aconchega-nos com “Eyes Wider Than Before”, “Earth To Calm” e “White Feathered Medicine”. Falando em deserto, “Sweet Scented Figure” é uma viagem de blues empoeirado pelas esporas de uma slide guitar e um ritmo a galope. O refrão, no entanto, é extremamente misterioso e suave, poeticamente sedutor. É uma canção que traz de volta o velho slogan de Fernando Pessoa: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. De forma mais homogénea, “Passing Stranger” prossegue pela brisa dos blues com alguma folk.

Em “City Headache” somos transportados para um embalante ritmo europeu, com a voz de Matthews em segundo plano, e um misterioso encanto que faz recordar a abertura de “So Real”, de Jeff Buckley. Chegando a “Elusive” encontramos o britânico em perfeita simplicidade acústica e intimidade lírica. Um dos temas mais fortes de Passing Stranger (facto comprovado pela adesão de rádios inglesas) “Elusive” tem uma beleza melancólica capaz de ser apreciada durante uma noite inteira. É também o ponto de partida para muitos dos fãs do músico.

Se conseguirmos absorver (ou ignorar) a dispersão musical presente em Passing Stranger, este consegue ser um álbum incrível e marcante. A comparação com vários outros músicos indie é quase inevitável, e pode inclusive ser suspeita de algum plágio ou, em última instânicia, reincarnação. Mas ao ouvir-se o disco depressa percebemos que as semelhanças de estilo não comprometem a personalidade que Scott Matthews transportou para as suas composições. Não sendo tão genial como alguns dos seus antecessores, Matthews é um talentoso músico, compositor e contador de histórias. Passing Stranger não será o disco de uma vida, mas será uma obra que conseguirá perpetuar-se nalgumas das vidas que se cruzarem no seu caminho.

8/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 27, Agosto, 2007.

 
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