Nicotine´s Orchestra – La Trahison Des Sons

“Ceci nes’t pas une orchestra!”, recupera por palavras a inesquecível obra do surrealista René Magritte e tal como em “La Trahison Des Images” (e sim o título do álbum também nos remete para a obra do pintor belga) quer dizer justamente isso mesmo. Pois bem, Nicotine’s Orchestra não é uma orquestra. La Trahison Des Sons trata-se do primeiro trabalho de longa-duração do projecto de Nick Nicotine (também apelidado de Maestro Nick Nicotine IV), aquilo que vulgarmente designamos por one man band, depois do EP Six Songs . Com a participação de dois membros dos Ballyhoos (Mamma Iola e Johnny Intense) num dos temas que compõem o trabalho, o músico do Barreiro apresenta-nos uma fusão de rock ‘n’ roll, blues e punk.

“Green Thumb” é o primeiro tema deste trabalho e também aquele que assinala a presença dos convidados especiais de Nicotine. Uma entrada a roçar o rockabilly, como de resto será todo o trabalho, feita especial referência ao terceiro tema, “O.K.”, onde facilmente nos imaginamos numa matinée, de saia rodada e a dançar freneticamente. Prosseguindo, vamos encontrar “In Your Eyes”, um tema a descair para a balada, mas sempre com a garra característica do rock ‘n’ roll, onde a guitarra tem um papel preponderante, ditando a melancolia oscilante do tema.

La Trahison Des Sons passa-nos pelos ouvidos quase como um sopro, dada a sua escassa duração: catorze temas com uma duração média de dois minutos e pouco, que acabam por não ser suficientes para nos apegarmos a este trabalho, fazendo dele banda sonora durante dias. A curta duração dos temas acaba por enfraquecê-los, ainda que este trabalho tenha, ocasionalmente, momentos bastante interessantes e arrojados, como a dupla “Philosophy Or Math” e “Adios, Chanquete” (esta última a fazer-nos lembrar temas que já ouvimos nos filmes de Quentin Tarantino), ou “Happiness Comes From Wasted Nights”, que coloca a Nicotine’s Orchestra próxima daqueles que são provavelmente o expoente máximo deste estilo a nível nacional, os Wraygunn, ainda que mais rock ‘n’ roll e menos blues que a banda de Paulo Furtado.

La Trahison Des Sons representa um começo destemido, assinalando desde logo a forte personalidade deste projecto, ainda que sejam de assinalar algumas arestas por limar, sobretudo no que toca a diversidade das composições. Este é um trabalho homogéneo, por vezes homogéneo de tal forma que se tornam praticamente imperceptíveis as variações entre os temas, uma característica que não deveria ser tão recorrente. Mesmo assim, La Trahison Des Sons comporta em si algo de pouco comum: é um trabalho extremamente visual, que facilmente nos remete para imagens cinematográficas muito específicas, como o caso já referido de Tarantino, e em “The Stain” vêm-nos à memória as imagens kitsch dos spaghetti westerns protagonizados por Terence Hill.

Assim, um punhado de temas com algum peso faz-nos acreditar na capacidade criativa e lógica evolução deste projecto, esperando que o próximo trabalho supere este que acabamos de ouvir.

6/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 1, Setembro, 2007.

 
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