Joanna Newsom – The Milk-Eyed Mender

The Milk-Eyed Mender (2004) marcou a estreia oficial de Joanna Newsom. Na verdade, este não foi o seu primeiro lançamento. Nos dois anos anteriores, pela sua própria mão, tinha lançado dois álbuns que chamaram à atenção da Drag City. The Milk-Eyed Mender congrega o que de melhor as duas “produções independentes” de Newsom continham.

Joanna Newsom prima pela originalidade e isso ficou patente desde o início. The Milk-Eyed Mender é simples, quase inocente, mas diferente de tudo o que possamos imaginar, principalmente pela voz peculiar de Newsom, assim como pelo papel principal que a harpa desempenha na sua obra. Todavia, não é o único instrumento que acompanha a instrumentalista, apesar de terem menor presença, também o piano, o órgão e o cravo têm o seu espaço.

“Bridges And Balloons” abre o álbum, apenas com Newsom e a harpa. São as duas companheiras, melhores amigas, que nos contam histórias. Pouco directas, assim são as narrativas de Joanna Newsom. Repletas de metáforas e analogias, escritas em bosques medievais, com princesas e cavaleiros. E cavalos brancos alados. Estão também muito ligadas ao ambiente marítimo e isso está bem presente nesta primeira faixa. “Bridges And Balloons” abre um caminho sereno para a “Sprout And The Bean”, o single do álbum e, ainda, dos seus temas mais conhecidos e acarinhados. Quem assistiu ao vídeo que ilustra este tema de certo compreenderá o que a pequena figura élfica tem para nos apaixonar pelo seu trabalho.

O romantismo espreita por entre as árvores frondosas do bosque por onde Newsom criou o álbum e “Sadie” é o seu exemplo primordial. Todavia, e apesar de ser inegável a semelhança da estridente voz de Newsom com a de uma criança, há algo de perversamente irónico neste primeiro registo de estúdio. Com toques de piano, “Inflammatory Writ” dá-nos um pouco dessa ironia, mas logo de seguida mergulhamos novamente nas águas profundas de doçura e de estranhas narrações. “This Side Of The Blue” é assim, imersa numa ternura agridoce. Apaziguadora e algo triste, concorre seriamente para o melhor tema do álbum com a delicada slide guitar de Noah Georgeson. Tendo trabalhado juntos nos The Pleased, uma banda de São Francisco, Georgeson para além de colaborar com pequenos apontamentos de guitarra, foi responsável pela produção e gravação do The Milk-Eyed Mender.

Aproximando-nos do final da nossa audição, aguardam-nos ainda boas surpresas e mesmo que à primeira vista possa não parecer – afinal, haverá alguém que não goste da melodia de uma harpa? –, o tema em que Newsom substitui a sua melhor amiga pelo cravo é uma brisa suave e agradável, daquelas pelas quais esperamos nas tardes de verão. A escolha do cravo reforça o gosto mais do que óbvio da trovadora pelo mundo medieval, ou não tivesse este origem na Idade Média. O tema de que falamos é “Peach, Plum, Pear”, onde se torna também mais clara a comparação que se tem tornado mais ou menos consensual entre a voz de Joanna Newsom e a de Kate Bush, principalmente no seu épico hit, “Wuthering Heights”.

Mas nem tudo é perfeito nesta estreia oficial. “Three Little Babes”, um tema tradicional e o único que não é da autoria de Newsom, é quase desastroso. Também este conta com a participação de Noah Georgeson, desta vez na voz, mas o registo vocal da trovadora é de tal forma agudo que dificulta a sua audição até ao final. Este percalço, no entanto, é facilmente esquecido com o tema que encerra o álbum. “Clam, Crab, Cockle, Cowrie” faz-nos apenas recordar o que de melhor Joanna Newsom escolheu para se apresentar no palco mundial.

Com apenas 22 anos, Newsom demonstrou um grande talento e criou um álbum que, apesar de não alcançar a perfeição, tem momentos preciosos e de uma qualidade excepcional. Contudo, era ainda como um diamante em bruto.

8/10 | Sílvia Dias

Anúncios

~ por hiddentrack.net em 7, Setembro, 2007.

 
%d bloggers like this: