Function ao vivo no Maxime

Os Function terminaram a passagem por Portugal com um concerto no cabaret Maxime. Perto do final de uma longa viagem pela Europa, a banda liderada por Matthew Nicholson parou em Lisboa para um concerto fascinante e repleto de pormenores que o tornaram numa experiência surreal.

:: 15 de Setembro de 2007

No outro lado do espelho

Um concerto num cabaret, mais concretamente no lisboeta Maxime é, necessariamente, diferente do que numa típica sala ou bar. Um concerto num cabaret não é bem um concerto, é um “espectáculo”. E embora pareça redundante, a diferença entre os dois conceitos está na envolvente que um cabaret proporciona a uma actuação musical ao vivo. Para começar, o palco vê-se como um santuário, um local que domina o espaço e que é rodeado de pequenas mesas quadrangulares e cubículos laterais para uma maior privacidade. Depois, durante toda a noite, aperaltados empregados de colete púrpura andam de mesa em mesa recolhendo pedidos e copos desnecessários perguntando aos clientes mais próximos, naturalmente, “que está a achar do espectáculo?”. Por fim, por entre a decoração kitsch adornada por milhares de espelhos e da venda de produtos da Conserveira de Lisboa e postais eróticos em sépia, os intensos tons vermelhos envolvem todos os cantos do cabaret, quer seja nos tecidos tingidos, quer na luz quente.

As palavras do renovador do cabaret Maxime, o mítico vocalista dos Ena Pá 2000 e Irmãos Catita, Manuel João Vieira, não deixam dúvidas ou reservas: “Interessa-me trazer aqui desde as bandas mais eruditas ou vanguardistas até ao extraordinariamente piroso”. E assim foi, mais uma noite. A estreia dos Function na capital portuguesa, dadas algumas das peculiares circunstâncias em que decorreu, acabaria por se tornar digna de um projecto de David Lynch.

Após as paragens em Barcelos e Aveiro, o sexteto australiano (na sua maioria) ofereceu aos presentes um longo concerto marcado por ambiências etéreas, adocicadas melodias indie, projecções visuais aleatórias e alguma improvisação em palco. Até aqui tudo normal, mas imaginem agora que em torno da música que já foi descrita como uma fusão de Sigur Rós, Broken Social Scene e Architecture In Helsinki, encontra-se um cabaret com apenas uma dúzia de interessados na banda e mais de trinta homens que festejam uma despedida de solteiro; uma DJ vestida com um hábito de freira e convenientemente intitulada de Irmã Lúcia a navegar por versões drum n’ bass dos Taxi e canções do Zeca Afonso; e um senhor, um habituet do Maxime, de fato branco e gravata vermelha (claro está) que para além ser o sempre último a acabar de aplaudir todos os temas dos Function, esfregava as mãos violentamente antes de cumprimentar algum dos empregados e encerrou a noite a dançar Arcade Fire num estilo surreal entre o tango e a dança-robô com uma mão metida no interior do casaco. Uma noite singular onde a música dos Function, apesar de pouco apreciada pela maioria dos presentes, teve um impacto de rara beleza naqueles que intencionalmente se deslocaram até à Praça da Alegria.

Embora todos estes elementos tenham composto a noite, falemos do que realmente importa, a música. Os Function são um projecto extremamente interessante. Surgiram a meio dos noventas, pela mente e mão de Matthew Nicholson e contam com dois álbuns de longa duração editados e um terceiro prestes a sair. Em palco, a responsabilidade de interpretar os temas compostos por dezenas de instrumentos e camadas sonoras recai sobre os cinco músicos que acompanham Matthew, uma espécie de maestro de uma orquestra repartida entre o digital e o analógico. Três computadores são parceiros naturais das guitarras, baixo, bateria, trombone, teclados e outros elementos.

Apesar da vertente electrónica e ambiental estar sempre presente, quer em luzidios droners, quer em abafados sintetizadores, os Function popularam a actuação com alguns dos seus temas mais “convencionais” e que se colam ao indie-rock, onde a guitarra acústica envergada por Pascal Barbare acompanhou quase sempre as duas guitarras eléctricas e onde não foram raras as vezes em que as vozes de Clare Tuckley e Felicity Mangan se juntaram às de Pascal e Matthew (“Seven Tongues Tasting The Night”, por exemplo). Com “New Music For Bowed Animals” os Function iniciam o espectáculo e libertam grande parte das suas ondas etéreas, deixando o público numa espécie de sobressalto e atarantada atenção. O concerto vai avançando através da algumas músicas novas, mas para o público qualquer tema é invariavelmente novo, desconhecido, estranho. Assim sendo, pouco serve referir a presença de “In The Woods”, “Thunders Freshwater Tears”, “Situational Cellophane” ou “Alone With Your Tattoos” no alinhamento, pois a noite foi feita sem nomes ou familiaridade. O ambiente era de exposição inocente, inadvertida até. Aliás, o único pedido acabou por ser o de um dos participantes da despedida de solteiro que abordou Pattrick Liddell (nos teclados) e pediu que dedicassem uma música ao noivo Samuel. Aquando do anúncio ao microfone do nome do felizardo a trupe masculina já tinha abandonado o cabaret, mas o espectáculo continua.

O concerto foi dividido em duas partes, convenientemente separadas por um intervalo de 20 minutos acordado com o cabaret. Na segunda metade, já com muito menos gente, a banda surgiu com alguns dos temas mais impactantes. “Uptown Theatre Music” destacou-se pela sua força e a sua sincronização audiovisual. A cada palavra cantada por Matthew correspondia uma imagem de fundo e sob o conceito “phisics of a mortal mind” o público foi sujeito a um inúmero despejar de conceitos que foram de “smile” a “consciousness”. Para o final, a banda entregou a poderosa “Hanalei (Alone With The Real Magic Dragon)”, com Pascal a colocar-se na bateria e a fazê-la ribombar intensamente, e as vozes de Matthew, Clare e Felicity a interligarem-se mais uma vez de forma hipnotizante. “Freedom Doesn’t Care What I Do” fez descer o pano de um concerto verdadeiramente único. Por vezes é assim que se assistem a momentos mágicos, quando tudo parece fora do lugar, invertido, e ninguém está a olhar.

texto: Gonçalo Sítima
fotos: Sílvia Dias

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~ por hiddentrack.net em 15, Setembro, 2007.

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