Bossk + Humanfly ao vivo na MusicBox

Apesar da noite ter sido feita com o sotaque britânico de ambas as bandas, pouco espaço houve para a palavra. Tanto os Bossk como os Humanfly preencheram a atmosfera da MusicBox com densos acordes e monolíticas composições sonoras. Com cerca de meia centena de pessoas a assistir, as arcadas lisboetas que sustentam a sala de concertos do Cais do Sodré estremeceram durante mais de duas horas de metal em marcha lenta e explosões de decibéis.

:: 19 de Setembro de 2007

Tremores sob Lisboa

Auto-intitulados como uma mistura entre os Pink Floyd e os Black Sabbath, os Humanfly tiveram a responsabilidade de abrir o concerto. O quarteto composto por Andy na guitarra, John na guitarra e voz, Dave na bateria e Mat no baixo tocou durante 45 minutos e raramente reduziu a elevada intensidade de música em música. Movendo-se com um perfeito à vontade pelo espectro das novas tendências do metal atmosférico e do sludge, com uma predominância de composições instrumentais, os Humanfly aproximam-se com arte e engenho de nomes como Pelican, Neurosis, Cult Of Luna e até Mastodon ou Torche.

Apesar do corpo da bateria ser algo minimalista, os temas dos Humanfly não soaram despidos nem debilitados, muito devido à violência e imaginação com que Dave geria o seu set, e ao trabalho das duas guitarras, munidas de meia dúzia de pedais de efeitos cada uma. Talvez seja nas guitarras que se encontre a prova mais evidente da junção dos ‘Floyd e dos ‘Sabbath – riffs suados, hipnóticos e explosivos, ora simples e pesados, ora envolvidos em modulações e efeitos, foram uma constante durante toda a actuação. Aos primeiros acordes a expressão “parede de som” pareceu materializar-se diante do público. O intenso volume dos instrumentos e a acústica da sala fizeram com que ninguém pudesse ficar indiferente ao peso da música dos Humanfly, nem perder os pormenores das guitarras de Andy e John. Apesar de desconhecidos e a julgar pela adesão do público em determinados temas, os Humanfly deixaram uma forte e positiva impressão nos presentes.

Pouco passava da uma da manhã quando os Bossk subiram ao palco. A primeira diferença entre as duas bandas notou-se mesmo antes do concerto arrancar, com a bateria a sofrer um verdadeiro upgrade representados por uma diversa quantidade de pratos e umas luzinhas azuis que quase anteciparam o espírito natalício em Lisboa. Mas não, com a restante iluminação diminuída e um foco apontado para o público, os Bossk criaram uma penumbra em palco que amplificou a força sonora emanada.

Com o seu primeiro disco a poucos dias de ser editado (e já disponível na banca de merchandise da banda), a banda de Ashford fez de .2 (sucessor do EP .1 (2005)) o principal motor da actuação. Partilhando os mesmo caminhos sonoros que os Humanfly, pode-se dizer que se distinguem destes por se basearem em fórmulas mais refinadas, com uma agressividade mais cadenciada e subtil. Isto é, em vez de atacarem directamente, preferem levar o ouvinte lentamente em crescendos montanhosos, bem ao estilo do pós-rock. E se no EP de apresentação, composto por apenas duas músicas mas ultrapassando os 35 minutos de duração, esta fórmula aliada a uma produção pouco brilhante gerava alguns momentos menos agradáveis, o mesmo não se poderá dizer deste concerto. De destacar, por exemplo, o corpulento e trepidante baixo de Tom Begley, ele que foi uma espécie frontman instrumental durante toda a actuação.

Com apenas três temas, os Bossk ocuparam a noite durante mais de uma hora. Devido à longa duração de cada tema, os momentos de paragem surgiam de forma inesperada e, quase sempre, como forma de recobro após o pico de violência sónica atingido. Inesperada foi também a entrada em palco do vocalista Sam Marsh, no segundo tema pertencente a .2 e com meia hora de concerto decorrida. Mas acabou por ser uma presença útil, intensificadora dos crescendos dos Bossk e com uma ferocidade tangível. O concerto acabaria por encerrar com “II”, a última faixa do EP .1, onde Sam regressa uma vez mais para contribuir vocalmente para a apoteose finalizadora. Para quem conhecia a banda somente através de .1, o concerto permitiu revelar uma maior força das composições dos Bossk que se poderia julgar desaparecida. No entanto, a actuação não surpreendeu por aí além e é quase incontornável colocar os Bossk na longa lista de bandas de pós-rock com influências de metal que actualmente germinam como cogumelos selvagens um pouco por todo o mundo. Apesar de ligeiramente previsível, a música dos Bossk não irá defraudar nenhum dos adeptos do referido género e qualquer dos seus concertos será uma experiência proveitosa e demolidora.

texto: Gonçalo Sítima
fotos: Sílvia Dias

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~ por hiddentrack.net em 19, Setembro, 2007.

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