PJ Harvey – White Chalk

Oitavo trabalho de estúdio de uma das mais influentes figuras femininas da música da última década e meia. O regresso de PJ Harvey com este White Chalk foi aguardado com a expectativa que se cria quando o trabalho de determinado músico se aproxima vertiginosamente da genialidade. Não se esperando menos, White Chalk é um trabalho que se descreve através de palavras como melancólico e profundamente poético.

Depois da abertura feita através de “The Devil” (uma das melhores letras do álbum), segue-se “Dear Darkness”, que vai descodificando a intenção de PJ Harvey de criar um registo mais lento, menos eléctrico, mais folk e menos rock do que porventura já nos habituara. A presença do piano assume-se como uma constante e em momentos como os que encerram “Grow Grow Grow”, as notas debitadas pelas teclas dispensam a presença de palavras. E assim chegamos calmamente a um dos momentos centrais de White Chalk, “When Under Ether”, onde a interpretação de PJ Harvey, de resto muito simples (praticamente minimalista), surge envolta num brilho intenso e reconfortante. É destes pequenos momentos de magia que se faz White Chalk. É também por esta capacidade de mexer com mais sentidos do que simplesmente a audição que PJ Harvey conquistou uma posição muito distinta no panorama do rock alternativo dos anos 90. Não se trata só de escrever e fazer música, mas de interagir sensorialmente com quem se dispõe a ouvir, fazer com quem escuta seja capaz de imaginar perfeitamente todos os locais e sentir todos os aromas.

Ao single de apresentação (a faixa homónima), segue-se “Broken Harp”, tema em que é dado destaque quase exclusivo à voz de PJ, mas que não vem mais que marcar presença num trabalho que se vai revelando um livro de memórias em verso. Espelho de tal descrição é “Silence”, outra das grandes faixas que compõem o trabalho. Incutindo um pouco mais de velocidade no tema, mas continuando no mesmo tom melancólico, “Silence” poderá ser um forte candidato a single. Mesmo que tal não aconteça, deste tema ficará na nossa memória o incrível poema que lhe serve de letra, onde as palavras ”I freed myself, I freed myself and remained alone” nos surgem tão desoladoras quanto plenas de determinação. “The Piano” é um tema ligeiramente diferente da sequência de oito temas que até então vão moldando White Chalk, mas que igualmente nos cativa, e mais faria, não fosse o final ligeiramente oscilante, com as vozes que nos deixam ligeiramente zonzos, qual carrossel.

“Before Departure” e “The Mountain” encerram trinta minutos de música, que parecendo pouco, acabam por ser a conta certa, tendo em conta o tipo de trabalho que a cantautora britânica concebeu, e que de resto o encerra de forma apoteótica, ou caótica, se pensarmos no ambiente que se foi desenvolvendo desde o primeiro tema. Mesmo com uma qualidade musical e literária próxima do invejável, a postura minimalista da produção tornou alguns temas (como “To Talk To You” ou o próprio “White Chalk”) algo insípidos, não conseguindo transformar a apreciação em deslumbre. Apesar disso, White Chalk resiste, porque os bons momentos são mesmo muito bons e porque as palavras de PJ Harvey saltam dos temas para dentro de nós.

8/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 29, Setembro, 2007.

 
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