God Is An Astronaut ao vivo no Santiago Alquimista

O Santiago Alquimista encheu-se de pós-rock numa noite que assinalou o regresso dos irlandeses God Is An Astronaut a Lisboa. A banda de Glen of the Downs levou o público numa viagem sideral pela sua discografia e apresentou o seu mais recente disco Far From Refuge. Com uma performance exímia em quase todos os sentidos, os God Is An Astronaut confirmaram a posição cimeira que ocupam junto dos seus semelhantes.

:: 19 de Outubro de 2007

A abrir a noite estiveram os leirienses The Allstar Project. Como prelúdio para os God Is An Astronaut, os The Allstar Project souberam aproveitar a presença de um público ideal para o seu estilo de música. Percorrendo as malhas do pós-rock a três guitarras, de crescendos efusivos e melodias sobrepostas, a banda composta por Nunez, Ramon, Sawyer, Velásquez e Paco (não se vê logo que são de Leiria?) deu-se a conhecer pela primeira vez a algum do público lisboeta. O concerto serviu também para o grupo apresentar o seu primeiro disco de longa duração, Your Reward… A Bullet, a ser editado este mês. Tendo ouvido o álbum de antemão, posso afirmar que nenhum dos temas tocados perde a sua identidade em palco. O que só lhes fica bem.

Se em disco “Riding The Bullet” é uma descarga energética intensa, servindo de perfeita introdução à natureza mais vigorosa dos The Allstar Project, foi sem surpresa que a banda escolheu também este tema para iniciar o concerto. De rock directo, sem artifícios e quase sempre no limite de uma elevada tensão eléctrica, “Riding The Bullet” serviu para agarrar o público pelos colarinhos. Contudo, os The Allstar Project têm as fórmulas clássicas do pós-rock bem assimiladas e quase todo o concerto foi feito de pequenos avanços e recuos, altos e baixos, entre as três guitarras e a secção rítmica – o que nem sempre teve um efeito positivo. Alguns dos temas chegaram mesmo a ser demasiado melodramáticas, causando alguma apatia. Foram demasiado convencionais. Só com “Polaris” é que a banda voltou a soltar-se novamente. O concerto encerraria, no entanto, com a magnífica “Frienemies”. Com a guitarra de Nunez a dar um toque bem lusitano no crescendo melódico na primeira metade, “Frienemies” revela-se como o tema-chave dos The Allstar Project. É contundente na forma como cresce, como surpreende no seu aparente amansar perto do final, e como ataca com riffs dilacerantes. Acabou em alta a presença dos The Allstar Project no Santiago Alquimista, mas o melhor estava ainda por vir.

Mesmo que o concerto de há dois anos dos God Is An Astronaut tenha preparado a maioria dos presentes no Santiago Alquimista para a intensidade sónica iria ser gerada em palco, duvido que alguém tenha conseguido ficar indiferente ao impacto avassalador dos temas que preencheram a noite. Com Far From Refuge, o terceiro e mais recente disco do grupo, a servir de pretexto para o regresso a Portugal, os God Is An Astronaut confirmaram a razão de serem um dos projectos pós-rock mais interessantes da actualidade (leia-se, de qualidade). Em poucas palavras, o concerto foi extremamente bom. Mesmo.

Os God Is An Astronaut são apenas três, Torsten Kinsella na guitarra, teclados e voz, Niels Kinsella no baixo e Lloyd Hanney na bateria – uma composição que poderá parecer insuficiente ao vivo, dada a profundidade sonora que apresentam nos álbuns. Mas tal não se verificou devido a uma presença fantasmagórica de um quarto elemento, uma espécie de “ghost in the machine”, que fazia soar as camadas electrónicas adicionais aos temas com uma precisão matemática. Em pano de fundo, uma apresentação visual que ilustrava cada tema, onde não faltaram paisagens siderais, parafernália espacial e imagens perturbantes de guerra e violência. Na ausência de palavras, a imagem dava um corpo mais definido aos temas da banda.

O alinhamento das canções foi bastante equilibrado, percorrendo os três discos da banda, com algum enfoque adicional a recair sobre Far From Refuge. “Tempus Horizon”, o mais recente single do grupo, fez descolar o concerto e seguiu-se-lhe “The End Of The Begining”. Com “Fragile” e “Far From Refuge” a banda instalou-se em terrenos mais plácidos e melódicos, com a voz processada e algo celestial de Torsten a fazer-se sentir ao lado dos restantes instrumentos. Se por um lado a primeira é uma referência para o que poderá ser uma “balada pós-rock”, a segunda viveu intensamente da força do baixo de Niels. “Point Pleasant” e “From Dust To The Beyond”, ambas do disco The End Of The Beginning (2002), emergiram em palco quase irreconhecíveis. Com a electrónica dominante do referido disco a remeter-se para um segundo plano, os God Is An Astronaut preencheram os dois temas com segmentos mais directos e viscerais. O final de “Frum Dust To The Beyond” foi avassalador, com Torsten a saltitar efusivamente e a ranger os dentes num riff zeppelliniano, fazendo lembrar a poderosa “Kashmir”.

Cada tema parecia trazer ao de cima um pouco da versátil natureza dos God Is An Astronaut. “New Years End” teve uma linha melódica de baixo perfeita; “Suicide By Star” explodiu violentamente no final com o pedal duplo de Lloyd e as guitarras cortantes de Torsten; e “A Moment Of Stilness” e “Sunrise In Aries” foram de uma suavidade inebriante. Outro dos momentos inesquecíveis surgiu com “Route 666”, mais um dos temas transformados de The End Of The Beginning. Introduzido por discursos fervorosos de homens religiosos, o tema avança numa toada algo dançável e termina com uma imagem de Baphomet projectada na tela e uma catarse sonora como ainda não se tinha sentido no concerto. Parece que as mentes fundamentalistas de alguns cristãos norte-americanos tinham razão: o rock é realmente demoníaco. E sabe tão bem.

Nada melhor para dispersar a áurea sombria de “Route 666” que a animada “Fire Flies And Empty Skies”. Com uma melodia viciante, com um travo a anos oitenta, os God Is Astronaut encerram o alinhamento principal do concerto debaixo de um ruidoso agradecimento por parte do público. Para o encore ficaram reservados “Coma” e a magistral “All Is Violent, All Is Bright”, conseguindo sossegar a aparentemente insaciável sede de música dos que assistiram ao concerto. Viu-se pela saída do palco algo cambaleante, suada e sorridente que os três irlandeses não poderiam estar mais satisfeitos. As cerca de duzentas pessoas que preencheram o Santiago Alquimista também não. E para aqueles que não compareceram, não se preocupem, para o ano há mais.

texto: Gonçalo Sítima
fotos: Sílvia Dias

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~ por hiddentrack.net em 19, Outubro, 2007.

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