Slaraffenland – Private Cinema

Oriundos da Dinamarca, os Slaraffenland são mais uma das muitas bandas que caíram na experiência pós-rock. O género está claramente a atingir um ponto de saturação, e cada vez são mais raras as bandas capazes de criar algo realmente cativante e que as distinga neste universo que se tornou imenso em tão curto espaço de tempo. Vizinhos dos Efterklang, transparecem as semelhanças entre as duas bandas, ainda que os Slaraffenland destaquem muito mais a presença das vozes que os Efterklang. São mais folk e menos electrónicos, mais rock e menos experimentais. É neste ponto que acabam por se distanciar do pós-rock (ainda que as influências sejam notórias), não caindo da cadência já demasiado insistente do género de se alongarem em temas cuja progressão acaba por ser somente temporal e que muitas vezes conduz a uma decrescente concentração da substância sonora que produzem.

Private Cinema é o terceiro trabalho do colectivo escandinavo, tendo a banda editado um registo homónimo em 2004 e um EP intitulado Jinkatawa em 2005. Este álbum é, ao longo de cinquenta minutos, um registo doce e peculiar, que nos desloca suavemente para todas as paisagens que conhecemos (nem que seja por postal) da inigualável zona que é a Dinamarca e a Escandinávia. “Sleep Tight” é o primeiro passo em tons pastel deste trabalho. Arrasta-se em nós como uma carícia, surpreende-nos pelas vozes em jeito de coro na totalidade do tema, que se vai progressivamente desconstruindo ao longo dos seus quase sete minutos de duração, para depois se re-aglomerar num desfecho tipicamente pós-rock.

O trabalho prossegue num ambiente mais alternativo por “Polaroids” e “This One Will Kill Us”, sendo que estes temas são fulcrais para que Private Cinema se torne um trabalho realmente digno de ser assinalado. “This One Will Kill Us” é de resto um dos temas mais pós do rock praticado pelos Slaraffenland, muito próximo, em certos momentos do trabalho dos japoneses Mono. “Watch Out” mantém a linha dos temas anteriormente mencionados, numa abordagem ligeiramente mais agressiva e que não tornará a ser encontrada ao longo de Private Cinema. É um tema que revela a sensibilidade dos Slaraffenland, que vai mostrando quão variadas podem ser as suas criações, tocando não apenas no lado do rock alternativo, mas também num folk melódico. É esta fusão que faz a música da banda dinamarquesa soar realmente diferente, sem nos lembrarmos de uma só banda que nos recorde os Slaraffenland em todo o seu conjunto.

“You Win” é um piscar de olho aos conterrâneos Efterklang, através da abordagem de elementos mais electrónicos, ainda que em tons mais altos do que aqueles que normalmente nos são oferecidos pelos Efterklang. O encerrar deste tema é absolutamente encantador e revestido de uma melancolia apaziguadora, que se difunde pelo tema seguinte: “Ghosts”. Começamos por ser invadidos por qualquer coisa que mais se assemelha com uma caixa de música, e a pouco e pouco são introduzidos os restantes instrumentos, com especial para a presença dos sopros, aqui bem menos discreta do que ao longo do restante trabalho.

Private Cinema é um trabalho muito suave, por vezes quase bucólico. De acordo com os próprios, Slaraffenland é uma palavra escandinava que significa “terra do leite e do mel” (sim, como a bíblica Terra Prometida). O nome assenta de forma deliciosa. O som dos Slaraffenland recebe precisamente o mesmo adjectivo que a combinação de leite e mel. Docinho, docinho, docinho.

8/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 28, Outubro, 2007.

 
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