Rufus Wainwright ao vivo no Coliseu dos Recreios

Já não se fazem artistas assim. Já não há artistas que se mantenham em palco durante quase três horas, sempre em crescendo de qualidade, sempre divertidos, sempre emocionantes. Mas há Rufus Wainwright e o concerto que deu no passado dia 6 de Novembro no Coliseu dos Recreios foi, no mínimo, memorável.

:: 06 de Novembro de 2007

Pouco depois da hora marcada, o canadiano sobe ao palco do Coliseu acompanhado de mais sete músicos (baterista, contrabaixista, três músicos na secção de sopros, dois guitarrista, sendo que um deles também tocava banjo e piano) para apresentar o mais recente Release the Stars, o seu melhor disco desde o remate de génio que foi Poses em 2001. Rufus Wainwright é uma figura ímpar no panorama musical. Ele é o homem entretenimento em pessoa, ao mesmo tempo que consegue ser altamente intimista. Ele tem uma veia operática que cada vez mais é realçada, onde ele e a sua voz são o centro de tudo e, ao mesmo tempo, é frágil e contido. É incrível como alguém se consegue desdobrar tão habilmente em tantos registos, sempre na perfeição.

O tema que dá título ao seu último registo foi o que abriu o espectáculo de forma imponente, para logo de seguida apresentar o conhecido e aplaudido single “Going to a Town”. Vestido com um fato branco com riscas vermelhas e vários adornos bem brilhantes, Rufus foi apresentado os temas do último disco (que foi tocado na íntegra) ou recuando um pouco ao passado e, entre a interpretação das suas canções, mostrava o quão bem disposto estava nessa noite, contando hilariantes histórias. Desde passeios pelo Museu dos Coches, a comentários sobre a arquitectura lisboeta ou episódios em festivais austríacos, Rufus Wainwright animou bastante as hostes com o seu toque de humor refinado.

Na primeira parte do concerto, além de temas de Release the Stars, recuámos até ao primeiro disco do cantor com “Danny Boy” e logo de seguida a mítica “Cigarrettes and Chocolate Milk” tocada por Rufus sozinho no palco, sendo que este foi um dos momentos mais esperados da noite. No final desta primeira parte foi interpretada “Between My Legs”, que contou com a participação da professora de ioga do canadiano a recitar a parte final da canção, que em disco é feita pela actriz Sîan Phillips.

Depois de um intervalo de cerca de quinze minutos, Rufus e banda entram de novo em palco, mas desta vez o músico envergava um traje tipicamente austríaco (com uns calções com suspensórios). Nestes trajes, Rufus homenageia a sua diva Judy Garland com uma interpretação impecável de “Foggy Day in London” de Gershwin e “If Love Were All”, sendo que no final do ano será editado um CD e DVD com o espectáculo que Rufus fez de homenagem a Garland, uma recriação do que esta fez em 1961 no Carnegie Hall. Foi pouco depois que Rufus teve a ousadia de cantar uma canção tradicional irlandesa, “Macushla”, sem microfone, e para espanto e admiração de todos, a voz de Rufus elevou-se aos céus, pois ouviu-se na perfeição, o que mostrou claramente a paixão que o cantor tem pela ópera.

“Not Ready to Love” foi outro dos momentos maiores de um espectáculo sem pontos baixos, desarmante na sua simplicidade e na carga emotiva que lhe está inerente. A contrapor houve as bem mais festivas “Beautiful Child” e “14th Street” a fechar a segunda parte, que foram das mais aplaudidas pelo público. Seguiu-se o primeiro encore, agora vestido com um roupão branco, onde se pode ouvir a melhor composição alguma vez feita por Rufus, “Poses”, e que por isso mesmo causou um turbilhão de emoções, pois é nestes momentos que vemos como o cantor se entrega por inteiro às suas canções. Na companhia da mãe, cantou a célebre “Somewhere Over the Rainbow” e “Barcelona”, uma recuperação muito apreciada do seu primeiro registo.

Depois disto começa a transformação. Rufus coloca uns brincos, pinta os lábios de vermelho e começa a cantar “Get Happy”, outrora interpretada por Judy Garland, momento que teve coreografia com o resto da banda, vestidos a rigor com um smoking, enquanto Rufus vestia somente o casaco, chapéu de feltro e sapatos altos. O homem do espectáculo em acção.

Depois do momento teatral, acaba com “Gay Messiah” um dos melhores concertos que Portugal teve o prazer de receber este ano e, muito provavelmente, a sua melhor prestação em Portugal. Se houvessem dúvidas, deixaram de haver – citando um dos seus fãs, “Rufus Wainwright é deus”.

texto: João Moço
fotos: Rita Trindade

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~ por hiddentrack.net em 6, Novembro, 2007.

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