Interpol ao vivo no Coliseu dos Recreios

Uma noite em cheio para os seguidores da banda nova-iorquina, se o concerto no Festival Super Bock Super Rock soube a pouco. Por entre a frieza que desde sempre caracterizou os Interpol, pôde assistir-se, ao longo de quase duas horas, a um desfilar de emoções urbanas envoltas num ambiente negro, coroado por sorrisos discretos que não conseguiram passar despercebidos.

:: 07 de Novembro de 2007

O Coliseu dos Recreios é, por excelência, o local privilegiado da capital para receber concertos dos mais diversos espectros musicais, quer por albergar as condições necessárias a nível de som para o efeito (que a Aula Magna também confere, mas apresenta outras limitações que o Coliseu não tem), quer por ser a sala mais emblemática de Lisboa. Por um acaso do destino, sabe-se que quando vamos a um concerto no Coliseu, iremos assistir a qualquer coisa de que nos lembraremos sempre com um sorriso. Volvidos quatro meses após a estreia em Portugal (no Festival Super Bock Super Rock), os norte-americanos Interpol regressaram aos palcos portugueses, desta vez para um concerto em nome próprio (como há tanto se desejava). Para a digressão europeia (que teve o pontapé de saída justamente em Lisboa), os Interpol escolheram como banda de abertura os Blonde Redhead, anónimos para alguns, vulgarmente conhecidos para outros. O Coliseu estava esgotado já há alguns dias, e os Interpol haviam deixado uma boa impressão no Verão. Nada poderia correr mal.

Cumprindo o horário com desvios dentro do normal, os Blonde Redhead apresentaram-se em palco poucos minutos depois das nove da noite. A vocalista, Kazu Makino, apresenta a banda e ouve-se “The Dress”, do mais recente trabalho deste trio composto por dois italianos e uma japonesa, 23 (2007). Alternando a voz com o guitarrista Amedeo Pace, os Blonde Redhead lá foram desfilando o seu rock alternativo perante uma assistência que os recebeu sem aquela expressão entediada com que tantas vezes (e injustas vezes) são premiadas as bandas a quem cabe a tarefa de fazer as chamadas primeiras partes. Com o seu ar de Alice no País das Maravilhas meio alucinada, é impossível não ficarmos presos e encantados com Kazu Makino, cuja voz confere uma forte sensualidade ao som dos Blonde Redhead. E foi com temas como “23” e “Spring And By Summer Fall” que o trio deu um concerto simples, com uma duração de cerca de 40 minutos, despedindo-se do mesmo modo como entraram, sem darem muito nas vistas.

Cerca de quinze minutos depois das dez da noite (o quarto de hora ritual da maioria dos concertos), são dados indícios de que a qualquer momento se ouvirão os primeiros acordes. Ao fundo do palco, um ecrã mostra a capa do último trabalho dos Interpol – Our Love To Admire (2007), e os membros da banda entram de modo descontraído, mas ao mesmo tempo solene. Sem surpresas, foi com “Pioneer To The Falls” que se fez a abertura do concerto. Paul Banks à boca de cena, no seu ar sempre distante, debita de modo irrepreensível o tema, e sem espaço para conversa passa de imediato a “Say Hello To The Angels”, a primeira passagem por Turn On The Bright Lights (2002). O concerto foi de resto bastante equilibrado no que toca à escolha dos temas, tendo incidido sobre o último trabalho, mas com visitas frequentes aos dois álbuns anteriores. Foram, de resto, temas de Turn On The Bright Lights e Antics que arrancaram os maiores aplausos da noite.

O entusiasmo crescia, e à entrada de “Obstacle 1” ouviram-se palmas, gritos, assobios, provando que este era um dos mais aguardados temas da noite, onde o público não se inibiu de cantar com o fôlego disponível “She can read, she can read, she can read, she’s bad!”. Estava feito o primeiro grande momento do concerto, quando já todo o Coliseu estava deliciado com a frenética exibição de Daniel Kessler, com os seus passos de dança que vão desde o cómico ao incrivelmente desajeitado, mas sem tropeçar por uma vez que fosse na execução da guitarra. Este foi, aliás, o principal trunfo dos Interpol durante todo o espectáculo: a forma exímia como tocaram cada tema, com precisão, cuidado e profissionalismo.

Voltou-se a cantar bem alto em “No I In Threesome”, que antecedeu “Slow Hands”, um dos raros temas em que de facto se assistiu a movimentações fortes nos corpos presentes na plateia (só se voltando a repetir a mesma energia em “The Heinrich Maneuver” e “PDA”). Este não é um tema originalmente carregado de descargas de alta voltagem, mas a dinâmica que a banda lhe incutiu, culpa da brilhante secção rítmica composta por Sam Fogarino na bateria e Carlos Dengler no baixo, transformou-o num verdadeiro colosso. E de um colosso passou-se para a fase mais morna no concerto, onde se ouviu “Rest My Chemistry” e “The Lighthouse”. Recuperada a respiração, novo momento alto se impunha. O tema que se seguiu, proporcionou um raro momento de interacção entre banda e público (os Interpol não fazem conversa). Aos primeiros acordes de “Evil” ouviu-se em uníssono ”Rosemary / Heaven restores you in life / You’re coming with me / Through the aging, the fearing, the strife” ao que Paul Banks respondeu com um sorriso discreto, sugerindo inclusive a repetição do momento. Não sendo uma composição espectacular, “Evil” tornou-se cartão de visita de Antics e é sempre aplaudida com entusiasmo. Com o desfilar de temas, sabia-se que o concerto estava a chegar ao fim. Passa-se por “The Heinrich Maneuver”, single de apresentação de Our Love To Admire, que é recebido com o frenesim que o próprio tema exige. Para o encore, os Interpol seleccionaram dois temas de Turn On The Bright Lights: “Stella Was A Diver And She Was Always Down” e “PDA”, um par de temas incríveis, mas que deveria ter sido um trio. No final do concerto a pergunta que se fazia era: E a “NYC”?

A falha no alinhamento não fez com que este concerto tenha perdido pontos. Já se sabe que os Interpol são uma banda pouco efusiva, que não fazem parte do extenso rol de bandas-entertainers que se prestam a discursos durante as actuações. O facto de o não fazerem não faz os concertos frios ou insípidos. E o principal elo de ligação entre o público estabeleceu-se de imediato aos primeiros acordes: o instantâneo reconhecimento dos temas e o câmbio de emoções entre a banda e a plateia que se foi tornando mais e mais evidente com o desfilar do alinhamento. Durante todo o concerto, os Interpol mostraram-se acima do simplesmente competentes, empenhando-se em cada tema sem excepção. Envoltos no simples set de luzes que lhes proporcionou a descrição que tanto apreciam, os Interpol ofereceram a cada um dos presentes alguns dos melhores momentos que a sua música comporta. Sem excessos, sem defeitos. A medida certa.

Alinhamento:
“Pioneer To The Falls”
“Say Hello To The Angels”
“Narc”
“Obstacle 1”
“Scale”
“Mammoth”
“No I In Threesome”
“Slow Hands”
“Rest My Chemistry”
“The Lighthouse”
“Evil”
“C’mere”
“The Heinrich Maneuver”
“Not Even Jail”
“Take You On A Cruise”
“Stella Was A Diver And She Was Always Down”
“PDA”

texto: Susana Jaulino
fotos: Paulo Vaz Henriques / Clicklight

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~ por hiddentrack.net em 7, Novembro, 2007.

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