Jens Lekman – Night Falls Over Kortedala

Acreditam que ainda podem existir crooners em pleno ano 2007, a cantarem canções pop românticas e melodramáticas, sem soarem completamente desfasados do tempo e da época em que vivem? Se sim fazem bem, pois o último que resta desta linhagem, que tem como um dos seus principais referentes o grande senhor Frank Sinatra, é Jens Lekman. Se não, vão ouvir o último disco do sueco que as dúvidas dissipam-se logo na abertura com “And I Remember Every Kiss”.

Confesso que até este trabalho nada na obra de Jens Lekman me tinha seduzido por aí além, me tinha deixado fascinando e surpreso. Antes deste, lançou When I Said I Wanted To Be Your Dog (2004) e Oh You’re So Silent Jens (2005), um disco de raridades e afins, onde se podia ouvir um bom compositor e intérprete de canções pop vintage, mas que não causava grandes turbulências emocionais. Mas algo mudou com Night Falls Over Kortedala. As orquestrações estão mais apuradas, cheias de vida e alma, em que violinos e grandes conjuntos de sopros, ora nos colocam num pedestal, ora dançam em tom de baile com o acordeão. Ouve-se pop kitsch que soa fascinante. Pianos, flautas, cordas a conviverem sumptuosamente, a relembrar algumas coisas da Motown dos 60’s ou um Scott Walker, em início de carreira a solo. As doses presentes de romantismo e drama na música são perfeitas, tal como as que estão presentes nas fantásticas histórias que Jens Lekman vai cantando.

Em Kortedala, bairro dos subúrbios de Gotemburgo, Lekman conheceu Nina, escrevendo-lhe um postal, de onde saltam versos como: “Nina I can be your boyfriend, so you can stay with your girlfriends, your father is a sweet old man but it’s hard for him to understand that you wanna love a woman”. Como ainda há quem saiba compor e cantar sobre a complexidade das relações humanas com elegância e sem soar pretensioso!

No entanto, numa canção como “If I Could Cry (It Would Feel Like This)” nem são precisas muitas palavras, só aquelas que dão título à canção, e no momento em que Jens vai dizer como se sente se pudesse chorar, rebenta uma orquestração épica, como se estivéssemos num filme romântico dos anos 50, e nada mais é preciso ser cantado. Ouvem-se por aqui rasgos de genialidade lírica como na muito bucólica “It Was A Strange Time In My Life”, em que Lekman canta: “People seem to think a shy personality equals gifted but if they would get to know one I’m sure that idea would have shifted, most shy people I know are extremely boring, either that or they are miserable from all the shit they’ve been storing”.

Night Falls Over Kortedala é uma surpresa, pois não se esperava que alguém conseguisse criar pop romântica vintage estimulante. Jens Lekman consegue-o com um brilhantismo raro.

9/10 | João Moço

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~ por hiddentrack.net em 14, Novembro, 2007.

 
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