Tiago Bettencourt & Mantha – O Jardim

tiagobettencourtmantha-ojardimO Jardim é um álbum difícil, por nos parecer tão simples à primeira, mas comecemos pelas apresentações. O Jardim marca o regresso de Tiago Bettencourt ao estúdio, mas não como elemento dos Toranja – que se encontram, aparentemente, “congelados”. Não é, no entanto, um lançamento a solo. Tiago Bettencourt embarcou rumo ao Canadá e aos estúdios que deram à luz Funeral (2004), dos Arcade Fire, acompanhado pelos Mantha. Lá, aguardava-os Howard Billerman, produtor que partilharam com os canadianos já referidos.

Como começámos por dizer, O Jardim é um álbum difícil. Primeiro porque o seu nome, assim como da maioria dos seus temas, é demasiado insípido e faz-nos torcer o nariz. Depois porque foi apresentado com “Canção Simples”. O tema de abertura e de apresentação é aquilo que diz ser, simples, composto por rimas óbvias e directas, chegando mesmo a parecer infantil. Mas esse é, muito possivelmente, o objectivo.

Ultrapassada a barreira da desconfiança inicial, O Jardim pode reservar-nos espaços para momentos agradáveis, para estados de espírito oscilantes. Não podemos desenhar uma linha orientadora neste álbum, ele soa muito mais a uma amálgama de ideias independentes, que por vezes se cruzam. É um álbum de temas e não conceptual, como podia parecer à partida.

Várias são as marcas dos Toranja neste registo, o que é compreensível, visto a autoria das letras ser a mesma. Assim, n’O Jardim podemos encontrar Tiago Bettencourt em duas facetas diferentes.

“Labirinto” segue os caminhos sinuosos do Segundo (2005) e em “Amanhã” revemos a força impetuosa a que nos habituámos com os Toranja. “Noite Demais” não é excepção, na sua melancolia proferida em tons secos, como folhas caídas em pleno Outono. Mas também há espaço para as baladas à la Toranja, como em “O Lugar”, incontestavelmente. Estejam muito atentos. São ideias confusas, que se misturam e que por várias vezes conseguem fazer realmente sentido. Nada nos é dado à partida e nas entranhas das malhas de metáforas, que Tiago Bettencourt tão habilmente teceu, podemo-nos ler profundamente.

Depois temos a nova faceta. Fresca, mas ácida. Assim é em “Os Dois”, assim se repete em “A Praia” e em “Fim Da Tarde”, mas mais fortemente em “O Campo”. Lá está a ironia típica e o confronto habitual, mas lá vivem novos ritmos, com véus que teimam em não cair. O Jardim podia ser maior – e entenda-se que não nos referimos a quantidade de temas.

E a certa altura chega-nos “Outono” e deixamos cair as defesas. É um tema de banda sonora, é certo. É candidato a suspiros soltos e a longas horas de airplay, mas é impossível não nos deixarmos embalar pelo seu tom suave, compassado pelas teclas do piano. No final mora a surpresa e o álbum fecha como abriu, quase como um círculo. Escondida depois de “O Jardim” vem novamente a “Canção Simples”, em que Sara Tavares acompanha Tiago Bettencourt.

O Jardim é um começar de novo, mas falta-lhe corpo. Falta-lhe um fio condutor para que não pareça tão disperso. Mais do que isso: falta-lhe uma alma apenas sua, distinta daquilo que foram os Toranja.

7/10 | Sílvia Dias

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~ por hiddentrack.net em 18, Novembro, 2007.

 
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