Ulver – Shadows Of The Sun

Há bandas versáteis, que experimentam diversas sonoridades nos diversos álbuns que vão compondo, muitas acabam vulgarmente por ser apelidadas de “vendidas” e outros epítetos que tais. E da Noruega, vieram os Ulver. Os Ulver são, provavelmente, uma das bandas cuja metamorfose é a mais agradável e rica quando sujeita a exploração. Ao longo dos seus quase quinze anos de carreira, os Ulver propuseram-se a experimentar um pouco de tudo o que havia para experimentar. Se não, vejamos: numa fase inicial, entre 1994 e 1997 os Ulver eram conhecidos como uma banda de black metal, tendo editado três álbuns neste período. O ponto de viragem dá-se com o álbum conceptual Theme’s From William Blake’s The Marriage Of Heaven And Hell (1998), onde a banda se apresentou numa abordagem muito mais experimental, avant-garde. Os trabalhos que se seguiram foram limando cada vez mais esta predisposição para a experiência e os Ulver enveredaram por caminhos tão distintos do inicial black metal como o trip-hop e a electrónica ambiental. Seis álbuns depois, e um conjunto sem número de colaborações com outras bandas, EPs e composições de bandas sonoras, chega-nos em 2007 o sétimo registo de longa duração dos Ulver, Shadows Of The Sun. Impróprio para ouvidos pouco atentos.

“Eos” é o primeiro tema e foi originalmente trabalhado para a banda sonora do filme Uno, composta pelos Ulver (que aparece como “Gravferd”). Somos de imediato invadidos por uma paz sepulcral, aquela que só se consegue em recantos abandonados de igrejas do século XII. Na verdade, Shadows Of The Sun soar-nos-á distintamente como se tivesse sido gravado justamente numa dessas igrejas, tal é o som profundo que emana do trabalho. Em “All The Love” começa a revelar-se a voz apaziguadora de Kristoffer Rygg que em determinados momentos lembra a voz do sueco Mikael Åkerfeldt, dos Opeth (sobretudo no tema “Shadows Of The Sun”); é nesta fase também que os Ulver começam a introduzir alguns elementos mais rock, que se fundem sem pressa com o lado mais experimental do primeiro tema.

E o trabalho avança, descurando no lado rock e apostando em larga escala nas sonoridades ambientais, construindo um álbum claramente inspirado na música de câmara. Este é capaz de criar um extraordinário efeito físico em quem ouve Shadows Of The Sun, onde tudo parece estranho e desconhecido, mas vai-se tornando mais e mais acolhedor, como se o nosso próprio espaço fosse encolhendo. “Vigil” é um excelente exemplo deste conjunto de sensações. E prossegue-se sem oscilações que façam cair por terra este trabalho. Existe ainda a lindíssima “Let The Children Go”, onde o trompete marca uma presença da qual jamais prescindiríamos. E logo a seguir, “Solitude”, uma versão dos Black Sabbath e que os Ulver souberam trabalhar como poucas bandas sabem, pelo menos no que diz respeito a versões. “Funebre” e “What Happened?” encerram o trabalho no mesmo tom que este se iniciara, envolto numa profunda melancolia e paz difícil de se atingir com outras bandas, mesmo num tempo em que a oferta é vastíssima.

Em certa medida, este trabalho dos Ulver recorda-nos aquilo que fizeram os Maudlin Of The Well ou o que fazem os próprios Kayo Dot. A diferença entre estes dois casos e os Ulver, é que os noruegueses estão realmente apostados em experimentar e não estabelecer uma regra como aconteceu com os dois projectos de Toby Driver. Se existe uma lista bandas a inovar, os Ulver aparecem decerto no topo. O único problema de Shadows Of The Sun é ser pouquíssimo abrangente, por ser demasiado delicado e experimentalista, passando assim, como a grande parte do trabalho dos Ulver, despercebido.

8/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 18, Novembro, 2007.

 
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