Sigur Rós – Hvarf / Heim

Depois de inundarem todo o planeta em nevados acordes e cintilantes explosões musicais, os Sigur Rós regressam a casa. Deambulando pelas paisagens islandesas, a banda inicia uma viagem de concertos discretos em locais estranhos, imprevisíveis e atípicos, que resulta na criação de um documentário (Heima) e de um disco duplo ao vivo, Hvarf / Heim. É aqui que nos encontramos novamente com os Sigur Rós. Com o corpo coberto de camisolas de lã pesadas, gorros coloridos, a pele empalidecida pelo frio e o sangue aquecido pela música. Hvarf / Heim não é um disco novo, é apenas um revisitar caloroso e intimista.

Hvarf, que se distingue do seu irmão gémeo por fazer uso da alimentação eléctrica, consegue ser o disco mais interessante deste lançamento. Nele constam três temas inéditos e reinterpretações de “Von” e “Hafssól”, ambas do disco de estreia de 1997, Von. O disco abre com “Salka”, um tema sólido que caminha lentamente entre as melodias crepusculares das guitarras e o embalo dos falsetes de Jónsi. “Hjómalind” é mais estruturado e aproxima-se bastante da típica canção rock. Aliás, as palavras de Jónsi chegam mesmo a ser fáceis de trautear, parecendo uma espécie de inglês infantil. Um single pleno de sentido. Com “Í Gær” a banda islandesa revisita a sua vertente mais obscura, conjugando perversamente uma melodia de caixinha de música com texturas densas de distorção. Contudo, nenhum destes três temas consegue indicar com precisão que caminho irão tomar os Sigur Rós no pós-Takk, provocando apenas uma sensação de nostalgia.

“Von” e “Hafssól” estão tão distantes das suas versões originais, como os Sigur Rós estão da sua fase iniciática e experimental. Os sintetizadores claustrofóbicos e gélidos deram lugar à suavidade das cordas clássicas e a voz de Jónsi emancipou-se, tornando-se um elemento fulcral na estrutura de ambos os temas. A transformação é particularmente notável em “Hafssól”, um tema que é um dos pontos altos de qualquer concerto da banda e que já tinha sido lançado no single “Hoppipolla”. As cordas do baixo ressoam nervosamente à medida que a baqueta as atinge, as guitarras tocadas com arco vão formando o corpo e depressa vemo-nos envolvidos pela inebriante força do pós-rock dos Sigur Rós.

Com Heim, a história é outra. Em intimidade acústica, a banda islandesa despe as suas canções da voltagem eléctrica e apresenta-se mais frágil e apaziguadora. As cordas clássicas das Amiina assumem um papel preponderante e a voz de Jónsi eleva-se entre o sossego instrumental. “Starálfur” e “Agætis Byrjun” são dois dos temas que beneficiam em muito deste novo formato. Numa direcção ligeiramente mais pop, devido em muito às melodias de piano enternecedoras, estes dois temas de Agætis Byrjun (1999) sobrepõem-se aos restantes. “Heysátan” não difere muito da sua versão primordial, o que nos indica como Hvarf / Heim, mesmo que composto a partir da restante discografia dos Sigur Rós, aproxima-se mais a Takk que a qualquer outro álbum.

Contudo, tanto “Samskeyti” como “Vaka”, ambos de ( ) (2001), atraiçoam as suas versões anteriores e deixam um sabor amargo. Os temas (aparentemente) anónimos de ( ) têm um corpo robusto de sintetizadores e guitarras planantes, criados na proporção certa dos diversos instrumentos e elementos da banda. Em “Samskeyti” a cíclica melodia de piano soa demasiado evidente, anulando-se a si mesma. Enquanto que em “Vaka” os pequenos ajustes operados fazem com que nunca atinja perfeitamente o mesmo alento comovedor. A transposição para o lado acústico retirou-lhes esse corpo, deixando apenas um esqueleto musical incapaz de transportar consigo a mesma carga emocional, a mesma força.

Após quatro álbuns e um percurso evolutivo que os deixa na fase adulta de maturação como banda, o quarteto de Reykjavík encontra-se num óptimo momento para se retransformar e reinterpretar. Por outro lado, o registo ao vivo, espontâneo e liberto de algumas das suas canções é um feito que muito dificilmente poderia correr mal. Com excepção de alguns temas, este álbum duplo vem comprovar a força indelével da música e criatividade dos Sigur Rós. Aguarda-se agora por algo mais. Aguarda-se um novo descobrir e um novo despertar que suceda a Takk.

7/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 22, Novembro, 2007.

 
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