The Dillinger Escape Plan – Ire Works

dillingerescapeplan-ireworksIre Works tem tanto de devastador como de terapêutico. Com ele, os Dillinger Escape Plan recuperam da saída de dois membros da banda (Brian Benoit por lesão e Chris Pennie por opção) e das críticas de perda de integridade musical. Se Miss Machine (2004) causou ataques de urticária aos mais acérrimos apologistas do caos sonoro do mathcore, Ire Works poderá ser um bálsamo milagroso. Ou não. A banda não se esquece de como soa bem a fazer covers de Justin Timberlake ou da marca deixada pela colaboração com Mike Patton em Irony Is A Dead Scene (2002).

A história de Ire Works começa com alguma expectativa e receio face à saída de Chris Pennie, baterista de técnica vertiginosa e co-fundador da banda. Muitos anunciaram o fim dos Dillinger Escape Plan, ou pelo menos uma amputação irrecuperável, mas tal não aconteceu. Gil Sharone adaptou-se perfeitamente ao difícil lugar deixado por Pennie e permitiu que permanecessem na vanguarda do seu género. Embora bandas como Into The Moat, The End ou Pysopus tenham feito desenvolver significativamente este estilo, o lugar dos Dillinger Escape Plan está longe de poder ser preenchido por terceiros. E Ire Works comprova-o.

Os primeiros minutos do álbum são impetuosos. “Fix Your Face”, onde participa o antigo vocalista Dimitri Minakakis, e “Lurch” fazem colidir a banda com o ouvinte a alta-velocidade. Os riffs jazzísticos e incomodamente frontais de Ben Weinman, movidos por uma complexa orquestração rítmica, trazem à memória aquilo que de melhor existe em Calculating Infinity (1999) – falo de “Sugar Coated Sour” ou “Jim Fear”. Quase sem exceder os dois minutos de duração, os temas “Nong Eye Gong”, “82588” e “Party Smasher” juntam-se à parelha introdutória para incutirem a Ire Works uma dose de violência musical capaz de fazer sangrar ouvidos e gengivas.

Mas Ire Works não é um álbum linear. “Black Bubblegum” é a maior aproximação à pop (com as devidas precauções) que a banda já ousou fazer, superando mesmo a amplamente disseminada “Unretrofied” de Miss Machine. Os falsetes de Greg Puciato são dominantes e o refrão contagiante. A sensibilidade mainstream prossegue em “Milk Lizard” e, ainda, em “Dead As History”, embora esta última beneficie de uma abordagem mais experimental. A manipulação electrónica, característica da banda, tem uma função refinada, provendo a temas como “Sick On Sunday” e “When Acting As A Wave” uma variação nervosa e imprevisível. Contudo, há que referir que Ire Works é por vezes um álbum demasiado fragmentado. Temas demasiado curtos, que parecem retrair-se em vez de se concretizarem, como “Sick On Sunday” e até “Nong Eye Gong”, fazem com que o álbum perca alguma consistência.

A participação de Bren Hinds em “Horse Hunter” resulta numa música prodigiosa onde o caos dos Dillinger Escape Plan se entrelaça com a magnitude dos riffs dos Mastodon. Este é um concretizar libidinoso da fantasia de qualquer admirador das duas bandas. O álbum encerra com um tema atípico, relembrando o legado dos Faith No More. “Mouth Of Ghosts” evolui através de uma ambiência completamente liberta como até aqui não se tinha ouvido nos Dillinger Escape Plan. E embora termine perigosamente próxima de “Passenger”, dos Deftones, este é um tema francamente original e bem construído.

Ire Works poderá ser o melhor trabalho dos Dillinger Escape Plan até ao momento. Fazendo uma síntese entre os trabalhos anteriores da banda, este é um disco cuidado, amadurecido, tecnicamente complexo e que consegue ainda explorar territórios desconhecidos. Porém, o impacto que provoca é menor que o dos seus antecessores. Os Dillinger Escape Plan já não são uma banda em ascensão, são um nome comprovado e atestado. Não se esperava que Ire Works surpreendesse. É precisamente por isso que consegue ser um excelente álbum.

8/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 23, Novembro, 2007.

 
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