Tori Amos – Little Earthquakes

toriamos-littleearthquakesTori Amos iniciou a sua carreira com uma banda e um álbum com o nome Y Kant Tori Read. A experiência não foi certamente memorável, uma vez que Tori foi impelida pela editora a esquecer o piano que a havia acompanhado desde a infância e a adoptar um estilo mais adequado à época (aos anos 80, entenda-se). Portanto, a única coisa genuína em Y Kant Tori Read é a voz de Tori Amos e considera-se, consensualmente, Little Earthquakes como o seu primeiro álbum a sério.

Little Earthquakes foi construído como uma espécie de álbum de memórias, sendo nesse sentido o mais genuíno e biográfico álbum de Tori Amos. Mas é também o mais ingénuo e, talvez devido à falta de maturidade, o que menos rompe com os cânones da música pop. “China” e “Tear In Your Hand”, sendo boas músicas, podiam fazer parte de outro álbum, de qualquer outro artista. São demasiado óbvias, demasiado confortáveis, falta-lhes a subversão e os sentimentos extremados que caracterizam os melhores momentos de Tori Amos.

O que torna Little Earthquakes num álbum interessante é o facto de apresentar, juntamente com músicas olvidáveis, algumas pérolas da carreira de Tori Amos. “Crucify”, com um piano suave e uma precursão decidida, é um desses casos. Esta música, muito no estilo “desabafos de uma adolescente”, centra-se no sentimento de exclusão e na falta de autoconfiança, que por vezes levam as pessoas a acreditar que merecem realmente ser alvo das críticas dos outros. “Precious Things” fala também em ser posto de parte, mas neste caso a postura conformista é abandonada e a raiva promete fazer vítimas. Entre uma sequência de piano tão sensível e melancólica quanto possível, Tori afirma: « I wanna smash the faces / Of those beautiful boys / Those christian boys / So you can make me cum/ That doesn’t make you Jesus». A raiva vai aumentando até que o piano, que até agora tinha sido uma das forces tranquilizadoras da música, perde também as estribeiras e funde-se com a guitarra e a bateria.

“Winter” é Little Earthquakes no seu melhor. A perfeição deixa de ser uma miragem e é corporizada, de forma avassaladoramente comovente, numa música que pouco mais tem do que voz e piano. A infância e as expectativas defraudadas ditam os caminhos percorridos, por entre imagens acolhedoras mas carregadas de melancolia, por se saber que nunca mais poderão ser revividas. Os dias da inocência terminam, e se dantes os sonhos (representados pelos cavalos brancos) permaneciam intocáveis, hoje já é tarde de mais…

O momento mais marcante de Little Earthquakes seria, no entanto, “Me and a Gun”. A razão é muito simples: Tori, sem nenhum acompanhamento musical, conta como foi violada e que, o que lhe permitiu resistir a essa experiência, foi não ter ainda realizado alguns sonhos. Tori Amos quebrou assim um tabu e demonstrou o quão ténues eram as barreiras entre a sua música e a sua vida pessoal.

Little Earthquakes é um álbum único, muito porque foi feito sem grandes expectativas, o que explica a sua simplicidade, mas também porque tem uma grande carga de intimidade, quase como se Tori Amos convidasse os ouvintes a ler o seu diário. Não sendo um dos melhores álbuns de Tori, é aquele em que assume os seus sentimentos de forma mais peremptória, sem necessitar de recorrer a alter-egos. Genuíno…

8/10 | João Oliveira

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~ por hiddentrack.net em 11, Dezembro, 2007.

 
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