Retroespectiva 2007

2007 foi um ano de mudanças. Foi o ano em que a forma como se ouve, se pensa e se analisa a música sofreram mutações irreversíveis. Um pouco por todo o lado falou-se da estratégia dos Radiohead quando deram oportunidade aos fãs de adquirirem o novo disco, In Rainbows, pelo preço que bem entendessem. Correram algum risco? Obviamente que não, pois todos sabemos que o quinteto britânico já se encontra numa posição bastante confortável para se dar a estes “luxos”. No entanto, a verdade é que lançaram pistas para o futuro da indústria discográfica, que este ano continuou a mostrar sinais evidentes que a sua morte ou revitalização profunda estão para breve. Entretanto, já vários outros grupos se mostraram favoráveis a esta forma de dar música ao público, mas tal estratégia só funcionará nos próximos tempos para grupos que já amealharam um sucesso mundial tal que nem precisam de editar novos discos para que a sua posição no meio musical não seja minimamente abalada, como é o caso de Prince, que este ano editou Planet Earth de forma gratuita no Reino Unido com a compra de um dos principais semanários do país, Mail On Sunday. Também os blogs tiveram este ano uma importância vital para a forma como se ouve música, pois são eles que muitas vezes fazem despontar sucessos e criar hypes, algo que tem afectado a escrita musical especializada, seja em papel, seja mesmo na Internet (como vimos com o desaparecimento da Stylus Magazine).

Tal como vimos anteriormente, o MySpace continuou a ser o portal que mais facilita as bandas actuais a saltarem da garagem e em Portugal isso é mais que óbvio, como vimos com o crescente burburinho à volta dos Macacos do Chinês, quando ainda nem têm um disco editado e já foram tocar ao Festival Atlantic Waves em Londres. Também de destacar que o grupo arrisca imenso na sua música, pois quem viu em Portugal alguém fazer grime com referências da música tradicional portuguesa, arábe e até clássica, e ainda assim tudo se ligar com coerência e precisão? Exacto, ninguém. Na pop/rock nacional há um movimento a crescer no portal, onde uma série de bandas não quer deixar-se levar pelo domínio da língua anglo-saxónica e 2008 será, muito provavelmente, um ano de crescimento para estas bandas, como Os 400 Golpes e Os Pontos Negros. Apesar das escassas edições realmente criativas no panorama musical nacional, houve Mudar de Bina de Norberto Lobo, um talento incrível a tocar guitarra portuguesa, e o primeiro registo dos Lobster, uma das primeiras bandas do movimento noise nacional que se estrearam com maior exposição. A música noise nacional também vive uma época de ouro, com a criatividade a brotar em muitas mentes, algo que se pôde ver com grande clareza e satisfação na festa de Natal da promotora Filho Único, na Avenida da Liberdade.

Lá fora houve alguns nomes que tiveram a coragem de renovarem e darem um novo fôlego aos géneros em que se movem, algo que é de louvar nos dias de hoje. Burial é um desses exemplos, que pegando numa música muito própria de Londres, o dubstep, extrapolou-a para caminhos fantasmagóricos e deu-lhe uma emoção tão sensível à flor da pele, algo que raras vezes vemos acontecer. Os Battles são outro exemplo, com o seu rock matemático, tribal, cerebral, onde técnica e originalidade se encontraram para brotatem um dos discos mais marcantes de 2007, Mirrored. Já os LCD Soundsystem aprofundaram o seu conhecimento e manuseamento das músicas do passado, desde o funk, ao punk, à disco ou pop, trouxeram tudo para o presente e criaram uma obra intemporal. Panda Bear é outra das figuras mais marcantes de 2007. Seja pelo seu álbum, Person Pitch, que pegando numa quantidade absurda de sons de outrem, fez uma música tão própria de si e tão característica, mesmo que passe de alucinações da folk mais libertina ao dub mais obscuro ou a coros 60s. É também uma das figuras do ano por ser membro dos Animal Collective, que refinaram a sua estrutura de fazer canções pop que só poderiam ser deles. M.I.A é a figura feminina mais marcante, pois com Kala não teve medo de criar uma pop urbana que junta em si linguagens musicais muito específicas, das periferias das grandes cidades mundiais (desde ritmos latinos, africanos, indianos) com electrónicas várias e uma sensibilidade pop que obrigaram meio mundo a entregarem-se de corpo e alma (mas mais corpo) ao som de Bollywood, galinhas e tiros.

O techno, na sua vertente mais minimal, voltou a ser uma das formas musicais electrónicas mais estimulantes, graças a registos de The Field, Pantha Du Prince, Matthew Dear (este sob nome próprio e como False) e sempre Ricardo Villalobos, que de ano para ano mais nos convence de que é um dos grandes génios da década em que vivemos. Na electrónica mais maximalista, 2007 foi o ano dos Daft Punk, mesmo que só tenham editado um disco ao vivo (muito recomendável por sinal). Porquê? Pois sem eles o “french touch” não tinha dado tanto que falar outra vez,devido a nomes como Justice, Boys Noize, Kavinsky, SebAstian e outros registos da Ed Banger que fomentam uma house metaleira, com mais espírito rock’n’roll que os grupos rock actuais. Este movimento estendeu-se além da França com o sucesso de Digitalism (Alemanha) e Simian Mobile Disco (Inglaterra).

Quando parece que tudo já está inventado, em 2007 artistas um pouco por todo o lado começaram com fusões impensáveis, mas só assim mantiveram a chama criativa acesa. É de louvar quem o fez e de fomentar ainda mais estas junções, pois vivemos numa época onde tudo se cruza, em que nada pertence realmente a um sítio, a um género, a um grupo e só assim, com a partilha de influências e referências, a música continua a andar para a frente.


João Moço

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~ por hiddentrack.net em 13, Dezembro, 2007.

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