Kevin Drew – Spirit If…

Não é de estranhar que o álbum de estreia de Kevin Drew venha com o nome da sua banda materna na capa. Os canadianos Broken Social Scene conseguem ser de tal forma volumosos – e não falo apenas do número de colaboradores nos discos e em palco – que podem dar à luz outros projectos e manter-se incorruptíveis. Este não é um álbum a solo, nem Kevin Drew tenta passá-lo como tal. Spirit If… é apenas um pouco menos de Brendan Canning, de Justin Peroff ou Andrew Whiteman e mais de Kevin Drew. E é tudo aquilo que se podia esperar: rock megalómano, com dezenas de instrumentos, sem amarras nem constrangimentos, e algumas baladas de indie rock violadas e deixadas do avesso.

A cacofonia introdutória de “Farewell To The Pressure Kids”, onde os instrumentos gritam violentamente, serve perfeitamente para desobstruir os ouvidos e prepará-los para escutar com a atenção devida todo o álbum. Rodopiando sobre uma reminiscente linha melódica, Kevin Drew consegue ir de uma apoteótica celebração sonora, até a um recôndito sussurro. A isto chama-se flair. E talento. “Tbtf”, acrónimo para “too beautiful to fuck”, é uma daquelas baladas leves e altamente improváveis que só a mente de Kevin Drew conseguiria construir.

O ruído de “Farewell To The Pressure Kids” parmenecerá distante à medida que “Fucked Up Kid” e, principalmente, a maravilhosa “Safety Bricks” povoam o ar. Esta última tem uma simplicidade invejável, imbuída de folk, com guitarras acústicas desarticuladas e uma tarola seca a marcar o passo. Um dos melhores temas do disco. É neste registo que Kevin Drew constrói grande parte de Spirit If…, visível no sossego acústico, adornado com pianos e instrumentos de sopro, de “Broke Me Up”, “Gang Bang Suicide” ou “Aging Faces / Losing Places”, onde se conseguem ouvir sedutoramente Amy Millan, Leslie Feist e Emily Haines. Até a fugidia “Frightening Lives” consegue manter um tom moderado e enquanto acelera com emergência. É assim que Spirit If… se afasta dos álbuns dos Broken Social Scene, pela predominância de músicas que ardem devagar.

Mas há também “Lucky Ones”, uma canção cheia e viva, como “Almost Crimes”, “Ibi Dreams Of Pavement (A Better Day)” ou “Superconnected”, que atiram a trupe dos Broken Social Scene para a dianteira do indie rock. Sobra também espaço para a festiva “Backed Out The…” (“cocks” e não “cause” como inocentemente se poderia pensar), que para além de ter um sentimento admirável e pulsante de ser tocada ao vivo, consegue trazer os riffs de J.Mascis (Dinosaur Jr.) para o interior do disco. Como devem ter reparado, as letras mantêm uma prosa poética irreverente (pornográfica até), característica de Kevin Drew, que se pode comparar (acompanhem-me se faz favor) ao que um Thom Yorke escreveria caso vivesse num constante estado de perversidade sexual. Ou algo parecido.

Spirit If… consegue ser um trabalho pessoal, sem ser solitário. Em 14 faixas, Kevin Drew exorciza todas as pequenas ideias que, possivelmente, se diluiriam no seio democrático (talvez anárquico) dos Broken Social Scene, e consegue-o fazendo-se acompanhar de toda a banda. Este é também um disco que homenageia todos aqueles nomes que ajudaram estruturar o indie rock – falo de Sonic Youth, Pavement, Dinosaur Jr. ou Pixies. E se estas não forem razões suficientes, pode-se sempre ter em conta que o álbum é ilustrado por uma capa amarela com dois reluzentes unicórnios brancos. Quem não desejaria ter semelhante item na sua colecção discográfica?

8/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 22, Dezembro, 2007.

 
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