Tori Amos – Under The Pink

toriamos-underthepinkNuma imensidão azul sobressai a figura de uma mulher vestida de branco. Essa mulher é Tori Amos, que escolheu esta imagem para capa do seu segundo álbum, Under the Pink. Azul e rosa. Masculino e feminino. Pode parecer contraditório que seja o azul a cor dominante num álbum com rosa no nome, mas a verdade é que este pormenor encerra em si um enorme simbolismo, mostrando o quão dominado é o rosa pelo azul, o quanto depende dele para se definir.

As mulheres são submetidas aos homens por uma sociedade misógina e, sobretudo, por uma religião (a Católica) consagrada aos homens, que apagou da sua tradição as figuras femininas, exceptuando a da imaculada Virgem, tão pouco representativa da condição feminina. É disso que se fala em “God”. Com uma sonoridade menos clássica que o resto do álbum, embora o piano continue a ser a força motriz, são os acordes da guitarra e do baixo que tornam a música interessante, que lhe dão vivacidade, que a tornam complexa. E são tantos os recantos que se escondem sob a multiplicidade de camadas sonoras, que por muitas vezes que se ouça “God” há sempre algo em que nunca se tinha reparado. “Past the Mission” percorre caminhos muito semelhantes em termos de sonoridade e temática, como se fosse uma espécie de continuação, surgindo a mulher mais uma vez como fonte de sabedoria.

E quando se pensa que Tori já foi suficientemente herética ao sugerir que Deus precisa de uma mulher para tomar conta de si, eis que surge “Icicle”. Uma voz, por vezes tímida, por vezes imperiosa, canta: «And when my hand touches myself I can finally rest my head / And when they say “take of his body”, I think I’ll take from mine instead / Getting off, getting off, while they’re all downstairs / Singing prayers, sing away, he’s in my pumpkin pj’s / Lay your book on my chest, feel the word». O arrojo, a beleza das palavras cantadas por Tori, apenas com a companhia do piano, dispensa qualquer tipo de comentário.

O piano é de facto o elemento central de Under the Pink, o que se percebe logo em “Pretty Good Year”. A doce sequência de piano, acompanhada por comoventes arranjos de cordas, serve de pano de fundo aos desabafos de alguém que, mesmo sabendo que a pessoa que ama atravessa um período difícil, tenta ver o lado positivo das coisas. E depois o optimismo dá lugar ao desespero, e o piano cede à bateria e à guitarra, num momento intensamente catártico.

“Bells for Her” transcende todos os ideais de beleza. Apenas uma voz e um piano, arranjado de forma a que ao premir uma tecla se ouçam pequenos sinos. O controlo que Tori Amos tem da intensidade, seja da sua voz, seja do som do piano, é absolutamente notável, e é essa a grande magia desta música, o passar da quase inaudibilidade à robustez em segundos. Há um grande sentimento de perda em “Bells for Her”, como se se tratasse de uma prece fúnebre, submersa na compreensão de que há coisas inevitáveis.

“Baker Baker” e “Cloud on My Tongue” falam também de perdas, mais propriamente de ser-se abandonado. Mas se na primeira a pessoa abandonada tem culpa por não se ter entregue, por não ter apostado suficientemente na relação, na segunda foi apenas trocada por outra pessoa, conformando-se com o que o destino lhe reservou. “Baker Baker” transparece por isso melancolia, saudade, enquanto “Cloud on My Tongue” oscila entre o desespero, o orgulho e o desdém.

A música mais ousada do álbum em termos sonoros é também a que melhor exprime a questão da competitividade feminina, capaz de desejar a morte outra mulher só porque trabalhar no mesmo sítio há mais tempo. “The Waitress” envolve o ouvinte numa atmosfera misteriosa, sufocantemente sedutora, explodindo no refrão toda a raiva, toda a violência, enquanto se repete «But I believe in peace bitch».

Mas por muito brilhantes que todas as músicas referidas sejam, “Cornflake Girl” é a jóia da coroa, a que mais se destaca na sua simplicidade poética. Com um tom por vezes sulista, por vezes clássico, consegue ser intensa de uma forma ligeira, séria mas muito descontraída, enfim, profundamente contraditória e desconcertante. Tori consegue sobretudo uma óptima gestão do som, sabendo quando usar só o piano e quando tornar a música num autêntico emaranhado sonoro, o que mostra a importância de, para além de escrever uma boa música, saber como trabalhá-la.

Under the Pink é uma versão melhorada de Little Earthquakes, mais racional e trabalhada, cujo encanto principal é o de ser um meio termo entre a intelectualidade que caracterizaria a carreira futura de Tori, e a honestidade e espontaneidade inicial, juntando assim o melhor dos dois mundos. No interior do álbum encontra-se a versão completa da imagem que serve de capa ao álbum e percebe-se que Tori está em cima de um pequeno planeta branco, vindo imediatamente à memória a história de O Principezinho. E então entende-se que há em Under the Pink um persistente sentimento de solidão, de alienação mesmo, como se esse fosse o preço a pagar pela autenticidade.

10/10 | João Oliveira

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~ por hiddentrack.net em 11, Janeiro, 2008.

 
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