Entrevista com Lobster

Ainda com Sexually Transmitted Electricity a fervilhar nos ouvidos do rock alternativo nacional, os Lobster responderam a algumas perguntas do hiddentrack.net. Guilherme Canhão, uma das duas tenazes dos Lobster (a outra é Ricardo Martins), fala-nos do crescimento da banda e da sua relação com o meio envolvente nacional.

De há uns anos para cá muito se fala do movimento noise nacional. Como é que encaram este movimento?

Guilherme Canhão: Encaramo-lo com qualquer outro movimento. Parece-nos haver muitas pessoas interessadas em fazer música, a querer assistir aos concertos e a organizar festivais virados para essas sonoridades, o que achamos ser bastante positivo, mas é como em tudo, há quem tenha algo a dizer e escolha essa forma para o fazer, e há quem faça barulho sem querer dizer seja o que for. Não que consideremos inaceitável o acto de fazer barulho por si só, mas a linha que separa as duas posturas é muito ténue e pode ser facilmente confundida ou mal interpretada.

Além disso, são a primeira banda deste movimento noise que edita um disco de originais por uma editora com maior peso, como a Bor Land. Como surgiu a oportunidade?

G.C.: Não diríamos que pertencemos a esse movimento mas também não nos importamos quando dizem que somos deste ou de outro. Não ligamos a isso porque não nos cabe a nós a função de encontrar a etiqueta que se adequa melhor à nossa música. Temos sem dúvida influências de música noise mas parece-me haver, no geral, um resultado que associamos mais ao rock. Sim, somos barulhentos mas acho que é diferente da atonalidade, imprecisão e da cacofonia que parece definir a música noise. A oportunidade de lançarmos um disco pela Bor Land surge com uma série de concertos que demos pelo norte do país. O Rodrigo (Cardoso) estava presente no concerto dos Maus Hábitos com os Magik Markers e os Smartini e começámos a falar. Aceitámos o convite para tocar na festa de anos dele no “Meu Mercedes…”, mantivemo-nos em contacto e ele acabou por lançar a proposta de lançar um disco nosso.

Como é que a lagosta vos define como banda, uma vez que se chamam Lobster?

G.C.: Não sei… Eu perguntei ao Ricardo “porque não fica Lobster?”, ele gostou e ficou então acordado que esse seria o nome da banda. Acho que não pensámos muito no seu significado mas sim na sonoridade da palavra. Desde aí temos vindo a desenvolver uma simpatia por crustáceos que acho que não existia antes da banda.

Até chegarem a este álbum gravaram vários CD-R e para netlabels. O quão importante foi para vocês passar primeiro por essa fase na banda até chegar ao primeiro álbum de originais, propriamente dito?

G.C.: Não sei se teve uma grande importância ou não, eram os meios que tínhamos disponíveis na altura e quando a Merzbau e a Lovers & Lollypops propuseram a ideia de lançarmos qualquer coisa através deles nós aceitámos. Era o que queríamos fazer e tínhamos material e ideias para o fazer. Por terem sido as primeiras temos um carinho especial por essas edições e há uma série de memórias agradáveis e nostálgicas relacionadas com elas. Estou a lembrar-me, por exemplo, do caso do split com os Veados Com Fome. Pode-se considerar tudo isso uma primeira fase mas é algo que queremos continuar a fazer e temos planos para isso.

A netlabel Merzbau foi onde tiveram várias edições. Como é que esta netlabel contribuiu para a vossa evolução?

G.C.: Contribuiu bastante. Foi inicialmente a Merzbau que apareceu com a proposta de lançarmos um EP e participarmos no OutFest desse ano, numa altura em que começámos a ponderar-nos enquanto duo e a fazer originais. Estávamos tão no início que quando o Tiago (Sousa) nos fez a proposta e foram decididos os prazos, não tínhamos sequer músicas suficientes para o fazer. Trabalhámos rapidamente com um objectivo concreto e isso fez com que não ficássemos parados a tocar apenas na garagem, e passámos logo para a fase da primeira gravação (o Fast Seafood) que nos proporcionou mais concertos, uma melhor divulgação, pessoas a falarem de nós e a puderem passar a nossa música nas rádios. A partir daí foi-nos possível ter uma melhor ideia do que estávamos a fazer.

O que é que querem transmitir com este vosso primeiro registo?

G.C.: Este disco é constituído por músicas que faziam parte das edições em CD-R e que optámos por gravá-las outra vez porque para além de as acharmos importantes para nós queríamos também torná-las mais acessíveis às pessoas que não tinham conhecimento ou acesso a essas edições. Depois as restantes músicas são as que temos estado a tocar ao vivo e que fazem a ponte entre as músicas antigas com as mais recentes que irão para o segundo álbum. Queríamos transmitir a evolução dos dois primeiros anos da banda e a energia das nossas músicas tocadas ao vivo.

As canções do vosso disco têm nomes muito curiosos como “Dr. Phil”, “Hot Flamingos (pink pelican)” ou “Farewell Chewbacca”. Como é que surgem estes títulos?

G.C.: Os títulos surgem naturalmente, um pouco da mesma forma como surgiu o nome para a banda. Por vezes um de nós tem uma ideia para um nome que gosta e ficamos à espera que apareça a música a que ele se adeque bem. Também já aconteceu fazermos uma música pensando primeiro no nome e uma vez foi o público que durante um concerto deu o nome a uma das músicas. Outras vezes acabamos de fazer uma música e o nome aparece instantaneamente como se não se pudesse chamar outra coisa. Mas cada nome tem uma pequena história por detrás e rimo-nos com isso, nem que seja por nos lembrarmos da quantidade de coisas estúpidas que dissemos até chegar ao nome final.

Em todas as edições da Bor Land nota-se um extremo cuidado com o grafismo das edições e o vosso registo não foi excepção. Fala-nos um pouco disto.

G.C.: A Bor Land fez-nos a proposta do packaging a partir da qual o Bráulio Amado desenhou o artwork todo. Achamos que ele fez um bom trabalho e que se adequa bem com o resto do disco. Ficámos contentes com o resultado.

São apenas dois membros, mas costumam colaborar com outros grupos, como os Veados Com Fome. Alguma vez pensaram em deixar entrar alguém para o vosso formato duo?

G.C.: Sim, já. Acabou por não acontecer por acharmos que não fazia sentido para já, mas nunca descartámos a ideia. Ainda estamos bastante confortáveis a fazer música no formato duo, mas nunca se sabe o que pode acontecer.

Já tocaram algumas vezes fora de Portugal. Como correu a experiência? Têm planos em explorar mais o mercado internacional?

G.C.: A experiência até hoje tem sido sempre óptima e a ideia é repetir as vezes que nos forem possíveis. Sim, queremos continuar a tocar noutros países e levar os nossos discos o mais longe que conseguirmos. A Islândia continua no topo da lista dos países que gostava de visitar e acho que o Ricardo quer ir ao Japão.

João Moço
janeiro.2008

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~ por hiddentrack.net em 18, Janeiro, 2008.

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