Bypass + The Allstar Project ao vivo na Galeria ZdB

A galeria Zé dos Bois recebeu mais uma noite de rock cheio de prefixos, sufixos e reformulações de todo o género. Os Bypass vieram mostrar o que têm andado a magicar desde o lançamento, em 2006, de Mighty Sounds Pristine e os The Allstar Project continuaram a apresentação do seu disco de estreia. A pequena sala encheu-se e o calor humano fez esquecer o frio lisboeta de Janeiro.

:: 19 de Janeiro de 2008

 

Your Reward… A Bullet colocou definitivamente os The Allstar Project na lista de bandas nacionais a seguir com atenção. Foi com este disco em mão, apregoando ruidosamente pelas ruas do Bairro Alto um pós-rock descaradamente bom, que o quinteto leiriense regressou a Lisboa. É bem possível que a maioria daqueles que compareceram na galeria Zé dos Bois (ZdB) para ver o concerto já tivessem travado conhecimento com a música dos The Allstar Project – quer propositadamente, quer equivocadamente enquanto procuravam o mais recente lançamento da marca de ténis criada por Chuck Taylor.

A julgar pela reacção do público antes e depois de cada tema apresentado, é seguro afirmar que os The Allstar Project não foram uns estranhos entre as quatro paredes da ZdB. E também não foi estranha a segurança e desenvoltura com que interpretaram cada canção. As três guitarras compenetradas avançavam e recuavam cada uma no seu devido lugar, como se de uma coreografia se tratasse. Em palco, como em disco, as partes complementam-se e os The Allstar Project conseguem criar verdadeiras narrativas ao longo das suas canções. Da vertiginosa abertura com “Riding The Bullet”, passando por “Polaris”, “Lasers Go Through Monkeys” ou “Frienemies”, foram raros os momentos de desconcentração ou perda de intensidade. Aqueles que apenas conheciam a banda enclausurada nos limites físicos de Your Reward… A Bullet ou um dos seus EP’s, com certeza que não ficaram desiludidos com a prestação em palco. Particularmente na intensidade com que Nunez atacava com a sua guitarra, trazendo um pouco do suor e sangue tão imprescindíveis a qualquer concerto de rock (seja ele mais ou menos “atmosférico”).

Mas nem tudo pareceu correr de forma alinhada no concerto dos The Allstar Project. À semelhança de muitos outros projectos de pós-rock e sonoridades “cinematográficas”, a banda decidiu passar em pano de fundo imagens que poderiam ajudar o público a entrar no espírito pretendido. Mas o tiro saiu pela culatra. Dificuldades técnicas, amadorismo e alguma ingenuidade fizeram com que o DVD fosse interrompido sucessivamente, exibindo nos momentos mais inoportunos (de grande intensidade sonora) um singelo “Pioneer” no fundo ou mensagens de erro. E depois lá voltava a repetir as mesmas imagens, vezes e vezes sem conta. Foi chato e distraiu. Para além disso, alguém devia ter dito aos The Allstar Project que é feio “roubar” imagens aos God Is An Astronaut e aos efeitos visuais do Windows Media Player. Não comprometeu o concerto, mas era dispensável.

 Ainda a noite estava a começar, para aquilo que se entende por “noite” no Bairro Alto (por volta da uma da manhã), quando os Bypass subiram ao palco da ZdB. A parede de som dos The Allstar Project desmoronou para dar lugar a um espaço aberto, repleto de ferramentas com que os Bypass iriam trabalhar. Uma lapsteel guitar, xilofone, teclados, tablas e outros elementos de percussão, e um megafone juntavam-se ao tradicional tríptico bateria-baixo-guitarra e faziam antever uma abordagem mais livre e experimental ao pretexto da noite: a música rock. Mas é assim que os Bypass funcionam, incorporando nas suas canções, sem deixar escapar uma oportunidade, um artifício inesperado, um pormenor enriquecedor ou, simplesmente, algo diferente. Foi esta atitude que moldou Mighty Sounds Pristine, o primeiro álbum da banda, e assim seguirão para o seu sucessor. O concerto na ZdB serviu, principalmente, para dar a conhecer alguns dos novos temas.

Num misto de canções inéditas e passagens por Mighty Sounds Pristine, os Bypass entregaram um concerto eclético e bastante dinâmico, com quase todos os seis membros da banda a alterarem as suas posições iniciais, quer para se afastarem do palco, quer para trocar de instrumentos. Um luxo reservado apenas a músicos altamente competentes. No complexo sistema dos Bypass, onde as partes são diminutas e o todo imenso, Bruno Coelho na bateria, Eduardo Raon na guitarra e dúzias de outras coisas, e Miguel Menezes como guitarrista e vocalista principal, servem como ponto central em torno do qual orbita toda a música. No caso particular de Eduardo Raon, deparamo-nos com uma verdadeira força da natureza em palco. Da guitarra eléctrica, lapsteel guitar, baixo até ao xilofone, todos os instrumentos são manuseados com uma precisão e perícia invejáveis. Tédio não é algo que tenha espaço num concerto de Bypass. Aliás, se algo poderá incomodar o público é a excessiva cacofonia que por vezes é criada. Talvez fosse a acústica da sala, talvez o choque de ouvir a banda pela primeira vez em concerto, mas espaços houve onde os Bypass pareciam tentáculos amputados de um mesmo corpo, esperneando sem direcção ou sentido. Esqueciam-se de algo fulcral: a melodia.

No alinhamento do concerto os temas de Mighty Sounds Pristine soaram bem alto. “Ashford”, single de eleição, “Setnov” e “Tobogan” foram algumas das interpretações que mais aplausos arrancaram. Não apenas por serem já conhecidas, mas porque permitiram que os Bypass soassem coesos e irrepreensíveis. “Sign Out…”, por seu lado, foi uma agradável surpresa pela sua simplicidade e crueza. Foram alguns minutos de rock humilde, com a banda reduzida a quarteto e a voz de Miguel Menezes a impor-se, e onde se pôde sentir a nostalgia do EP editado em 2002. E houve também a extenuante “Cadeira”, onde a banda extravasou toda a sua vertente experimental. “Vibes”, “ZDB” ou “Macacada” foram outros temas que marcaram presença no alinhamento exposto numa folha de papel perdida pelo chão, mas não creio que alguns destes títulos sejam mais do que referências provisórias (o novo álbum o dirá). Para o encore ficou reservada “Nine Am”, uma descarga de energia impressionante, que finalizou o concerto e atou quaisquer pontas soltas que pudessem restar. A noite, essa, prosseguiu pelas ruas do “Bairro” e pela antecipação de reencontrar as duas bandas num futuro próximo.

 

texto: Gonçalo Sítima
fotos: Sílvia Dias

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~ por hiddentrack.net em 20, Janeiro, 2008.

 
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