Entrevista com Recoil

Alan Wilder, ex-membro dos Depeche Mode e actual mentor de Recoil, respondeu a algumas perguntas colocadas pelo hiddentrack.net. Após regressar de uma viagem a Moscovo, onde continuou a apresentação do aclamado disco subHuman, o músico e produtor britânico falou sobre a identidade do projecto Recoil, da sua relação passada e presente com os Depeche Mode e da forma como vê e lida com a indústria musical que o envolve.

O projecto Recoil começou quando ainda eras um membro dos Depeche Mode. Sentiste a necessidade de fazer algo sozinho?

Alan Wilder: Querer fazer algo para além do “trabalho diário” é algo comum entre músicos de bandas. Suponho que apenas precisava de uma espécie de antídoto para os condicionalismos comerciais que existiam nos Depeche Mode. Era também frustrante ter de estar sempre a submeter decisões a votos e acabar por fazer cedências com as quais não me sentia satisfeito. Um pouco de autonomia não é uma coisa assim tão má.

Como é que o Martin, o Dave e o Fletcher reagiram quando lhes disseste que ias fazer um álbum a solo?

A.W.: Penso que na altura não disseram nada. Tínhamos tempo livre por isso não era um problema. Eu não teria qualquer problema se eles também quisessem fazer algo fora dos Depeche Mode.

Bloodline também foi feito antes de deixares os Depeche Mode. Tratou-se de uma tentativa de assegurar uma carreira futura fora do grupo?

A.W.: Não. Não estava propriamente a pensar no meu futuro. Só queria continuar a fazer música nos períodos em que os Depeche Mode não estavam activos.

subHuman é muito diferente dos teus álbuns anteriores. É mais masculino e mais centrado nos excluídos sociais e na violência. A componente feminina parece ser um escape, quase uma figura divina. Pretendias estabelecer uma correlação do tipo “homem = pecado” vs “mulher = pureza”?

A.W.: Essa é uma analogia muito filosófica e interessante! O meu raciocínio foi mais prático. Simplesmente senti que, numa perspectiva áudio, tinha de equilibrar a presença dominante do Joe (que concordo ser muito masculina), com uma voz feminina mais suave. De qualquer forma, não conheço muitas mulheres puras ;)

De facto, a figura de um homem a desrespeitar a lei é muito comum nas tuas músicas (como por exemplo em “Stalker” e “Luscious Apparatus”). Porquê?

A.W.: Talvez porque tenha maior interesse pelo lado negro da condição humana. É algo inevitavelmente mais fascinante e inspirador do que focar-me no amor ou noutros aspectos quotidianos.

Em que te inspiraste, em termos musicais, para criar subHuman? Qual consideras ser a música mais significativa do álbum?

A.W.: De uma perspectiva musical, não há quaisquer regras e fui influenciado por diferentes áreas. O modo como o som evolui é um processo intuitivo. Muito raramente começo um álbum com uma ideia específica em mente por isso, durante um longo período, não existe um centro temático, ou então é muito pequeno. Quando enviei as músicas ao Joe e à Carla, eles contribuíram com as suas letras e uma linha comum, embora ténue, começou a surgir. A seu tempo essa linha resultou num conceito abrangente e flexível.

Penso que “5000 Years” é a faixa fulcral uma vez que foi ela que despertou em mim a ideia para “subHuman” e deu-me pistas sobre como apresentar o álbum. A ideia é que, apesar da nossa postura sobre o quão “civilizados” somos enquanto espécie, continuamos a insistir em subjugar os outros – o que pode surgir de diferenças religiosas ou ideológicas, ou de um nível mais pessoas. Assim como muitas pessoas, estou cansado de todo o racismo, xenofobia, sexismo, homofobia e retórica religiosa que parecem dominar as nossas vidas.

De álbum para álbum parece que a música electrónica está a tornar-se cada vez menos importante e que os blues estão a conquistar uma posição dominante. Porque aconteceu isso?

A.W.: Sempre tive um amor por Blues e Gospel, sobretudo por representarem emoções tão cruas e as suas raízes serem tão importantes para toda a música moderna. Mas, como já referi, muitos outros estilos surgem no que faço, incluindo ideias mais contemporâneas. Para mim, a combinação entre a frieza da electrónica e tecnologia com sons e performances orgânicas resulta nalgo novo e fora do comum. Mas não tenho nenhuma ideia de qual vai ser a influência dos Blues no futuro do projecto Recoil.

A tua música é muitas vezes vista e descrita como sendo “difícil”, alternativa e pouco apelativa para as massas. Concordas com esta visão?

A.W.: Infelizmente não tenho muito respeito pelas “massas”. A verdade é que vivemos numa sociedade descartável que parece cada vez mais valorizar a trivialidade e aceitar a mediocridade. No entanto, acredito que haja pessoas que queiram um retorno ao artesanal, que queiram ouvir algo que não insulte a sua inteligência ou que satisfaça os caprichos de uma estupidificante cultura obcecada com as celebridades. Eu faço música há 30 anos e uma das coisas mais simples e importantes que aprendi foi a permanecer tão verdadeiro quanto possível a mim mesmo. Deparei-me com situações em que tive de fazer cedências em nome da comercialidade mas, à medida que envelheço, estou cada vez menos disposto a fazê-lo. Se isso significa que mais ninguém o entenda, então seja. Apenas tento produzir algo que eu gostasse de ouvir.

Outra coisa que é frequentemente dita é que és sobretudo um produtor. Achas que se trata de um juízo justo?

A.W.: “Produtor” é um termo muito vago – há muitos tipos. Mas é definitivamente onde tenho mais trunfos. Sou o primeiro a admitir que não sou um cantor e que escrever letras não é algo que faça com facilidade. As minhas competências são orquestrar sons e criar atmosferas.

Sendo as tuas capacidades enquanto produtor reconhecidas por todos, alguma vez consideraste a possibilidade de te tornares num produtor a tempo inteiro, ou a ideia de apenas produzir a música de outras pessoas deixa-te desconfortável?

A.W.: Estou sempre disposto para trabalhar com outras pessoas mas, geralmente, a produção externa não me é muito apelativa. Pedem-me muitas vezes que aceite trabalhos de produção mas a verdade é que sou um obcecado pelo controlo e a ideia de me envolver em batalhas criativas com outros artistas deixa-me nervoso. Já passei por isso. Honestamente, posso passar sem essa complicação.

Achas que o teu trabalho tem sido convenientemente promovido pela Mute?

A.W.: A Mute faz o seu melhor e tem-me apoiado muito. Deram-se a oportunidade de editar música quase sem interferências. Algo muito raro actualmente. No entanto, para uma tradicional empresa independente pequena, têm de ser mais reactivos do que proactivos. A Mute simplesmente não está numa posição em que possa criar artistas bem sucedidos gastando uma grande quantidade de dinheiro. Tendem a esperar que algo “pegue” antes de gastarem dinheiro. No âmbito actual, com uma indústria em crise, torna-se cada vez mais difícil apostar em projectos como Recoil – especialmente quando se lida com um público comprador de música que: a) quer música de graça, e b) está bastante satisfeito com porcarias manufacturadas e descartáveis. Eu próprio faço muita da minha promoção hoje em dia on-line. Tentar ou ter a esperança de ver os álbuns à venda em lojas é inútil. E os produtores de rádio e televisão têm uma janela muito pequena para música fora do mainstream.

Consideras que o projecto Recoil poderia existir tal como é se não tivesses trabalhado com os Depeche Mode?

A.W.: Não posso responder a isso. Tudo dependeria do que eu teria feito se não me tivesse juntado aos Depeche Mode. Certamente que seria difícil, pois os Depeche Mode deram-me a segurança financeira que me permite continuar com Recoil com os meus meios.

Recebeste algum feedback dos Depeche Mode acerca do teu trabalho?

A.W.: Há algum tempo que não falo com o Martin e o Fletcher, mas o Dave sempre apoiou muito o meu trabalho desde que deixei os Depeche Mode. Ele enviou-me um e-mail muito lisonjeiro congratulando-me pelo “subHuman”. Gostei desse gesto.

João Oliveira
janeiro.2008

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~ por hiddentrack.net em 20, Janeiro, 2008.

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