18 Anos de Silêncio

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Que bom deve ter sido acordar no dia 5 de Fevereiro, no longínquo ano de 1990. Acordar e sair de casa para comprar o novo single dos Depeche Mode, que o mundo iria conhecer nesse mesmo dia, ainda sem saber o quão marcante viria a ser. “Enjoy the Silence” foi posto à venda nesse dia de Inverno, mais de cinco meses após “Personal Jesus” e um mês antes de Violator e, com os seus soberbos arranjos electrónicos e um comoventemente simples riff de guitarra, seria o hino de uma geração.

Tudo em “Enjoy the Silence” é som manipulado, usando os instrumentos como fonte, mas trabalhando electronicamente os seus sons para lhes conferir uma nova identidade. Depois veio a tarefa mais difícil: conjugar todos os sons em infinitas camadas, sem que entrassem em conflito, formando um todo uno e coeso. E assim vão surgindo ao longo da música pormenores, muitos pormenores, minuciosamente pensados, desde as gélidas ondas electrónicas que trespassam o refrão, ao celestial coro.

O resultado final não poderia ser mais diferente da demo inicialmente apresentada por Martin Gore, que seria integrada no single com o nome “Enjoy the Silence (Harmonium)”. Nesta versão a voz doce e sofrida de Martin é acompanhada apenas por um órgão de igreja, surgindo como uma balada fúnebre. Ao ouvir esta versão Alan Wilder teve a ideia de acelerar a música e torná-la numa espécie de balada dançável. A verdade é que esta ideia não foi muito bem recebida inicialmente, com Martin a insistir que uma música com silêncio no nome nunca poderia ser uma música de dança. Mas Wilder insistiu, acelerou a música, Martin surgiu com o riff de guitarra, e de repente todos ficaram abismados, percebendo o que acabaram de criar. Pela primeira vez na sua carreira os Depeche Mode, pessimistas por natureza, estavam certos de ter um hit, um single que os levaria a um outro nível.

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Significado e Imagens

“Enjoy the Silence” centra-se na dicotomia entre as palavras e as emoções, ou entre a razão e os sentidos, ou entre o homem e a mulher. No fundo é um desabafo, uma súplica de um homem desesperado que, farto de racionalizações, só quer aproveitar o que tem, o sentimento que os une, sem palavras, sem votos, apenas emoções. Coube a Anton Corbijn transpor esta mensagem para imagens, num vídeo que se tornaria tão marcante quanto a música.

Segundo Anton a figura do rei surgiu-lhe porque se tratar de alguém que pode ter tudo, mas que neste caso rejeitaria todos os luxos só para poder viajar pelo mundo, apreciando o silêncio em diferentes locais. E assim Dave, vestido de rei, transporta uma cadeira por Portugal, pela Escócia e pelos Alpes Franceses e, quando confrontado com uma paisagem sumptuosa, pára, senta-se e aprecia o silêncio.

“Enjoy the Silence” ficaria para sempre associada à imagem do rei que transporta uma cadeira, mas também à rosa, seca, desprovida de vida, o símbolo de uma relação congelada no tempo, só assim se conseguindo o tão ambicionado silêncio.

Os b-sides e remixes

“Enjoy the Silence” foi um dos poucos singles da banda que teve direito a dois b-sides: “Memphisto” e “Sibeling”. No fundo as duas são diferentes faces da mesma moeda, ambas remetendo para ambientes estéreis e devastados, anunciando o fim dos tempos. “Memphisto” é desesperadamente avassaladora, com uma base de piano adornada com detalhes de “Enjoy the Silence”. “Sibeling” é sobretudo nostálgica, com uma réstia de esperança.

Em matéria de remixes “Enjoy the Silence” também se revelou profícuo. Nas várias versões do single de 1990 contabilizaram-se cinco remixes, sendo François Kevorkian responsável por 3 deles. O “Hands and Feet Mix” é Kevorkian no seu melhor, dando protagonismo aos sons que na faixa original serviam de pano de fundo, reorganizando todos os elementos da música. Já em “Ecstatic Dub” e “Bass Line” Kevorkian explora um lado mais experimental, jogando com manipulações e diferentes tipos de ritmos. Daniel Miller e Phil Legg fazem o mesmo em “Ricki Tik Tik Mix”

Mas é “The Quad: Final Mix” que revela uma maior ambição, juntando quatro remixes num só. A primeira parte, da responsabilidade de Tim Simenon, que já havia realizado outros mixes para a banda e que viria a produzir Ultra, respeita o original, substituindo a batida electrónica por um ritmo com um toque tropical. A segunda parte, de Holger Hiller, é a mais experimental, acrescentando de forma aleatória pequenos sons sobre o micro-ritmo que percorre toda a música. Gareth Jones, com Mimi Izumi Kobayashi, criou a terceira parte, uma versão da música em violino. A parte final coube a Adrian Sherwood, com David Harrow, devolvendo a “Enjoy the Silence” a sua garra e vivacidade.

Com a edição em 2004 de Remixes 81…04, “Enjoy the Silence” terá direito a mais três mixes. Timo Maas desilude, numa versão apática e inócua da música, mas Richard X e Ewan Pearson, respeitando os elementos originais, dão-lhe uma roupagem mais contemporânea. Importa também referir a reinterpretação que Mike Shinoda fez da música, num tom mais rock, que poderia ser perfeitamente um cover feito pelos Linkin Park.

Covers

Sendo a música mais bem sucedida dos Depeche Mode e a que permanece até hoje como a sua imagem de marca, vários artistas decidiram fazer covers de “Enjoy the Silence”, entre os quais os Him, os Keane e , mais recentemente, os Lacuna Coil. Sylvain Chauveau & Ensemble Nocturne editaram em 2005 um álbum de covers dos Depeche Mode, a que chamaram Down to the Bone. E neste tributo acústico “Enjoy the Silence” surge numa versão desconstruída, com grande parte da música a limitar-se ao piano, clarinete e violoncelo. E muito, muito silêncio.

Mas foi em 2001 que “Enjoy the Silence” conheceu o seu cover mais interessante. Tori Amos decidiu pegar numa música masculina e dar-lhe uma visão feminina, extremando-a. Assim, à frieza e desdém da voz e do piano na parte da música referente ao racional, às palavras, sucede-se a delicadeza, a emoção do refrão, votado aos sentidos.

João Oliveira

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~ por hiddentrack.net em 5, Fevereiro, 2008.

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