If Lucy Fell – Zebra Dance

Zebra Dance marca o regresso dos portugueses If Lucy Fell aos discos. O curioso título sugere o aprofundamento de um conceito que parece estar intrinsecamente ligado à banda: o escapismo. Da mesma forma que as zebras utilizam o padrão negro e branco para confundir os inimigos e facilitar a sua fuga, os If Lucy Fell utilizam a música e os seus tentáculos ruidosos e nervosos para fugir ao quotidiano urbano e às suas adversidades. Quem já teve o prazer de assistir a um dos seus concertos sabe que a intensidade eléctrica libertada em palco provoca uma estranha vontade de dançar desarticuladamente. O vocalista Makoto Yagyu assim o demonstra. Se os mais incautos julgam que na “música pesada” a dança se restringe a golpes de Kung Fu aéreo e headbanging, falta-lhes cruzarem-se com os If Lucy Fell.

De You Make Me Nervous (2005) para Zebra Dance algo ficou pelo caminho. Eu diria que foi alguma da violência sonora que os If Lucy Fell tinham herdado do hardcore. Neste novo disco, o rock e o punk (a exactidão dos termos fraqueja quando se misturam tão naturalmente) têm uma maior expressão. Mas ganharam algo também. João Pereira trouxe os seus teclados e a banda expandiu-se para um quinteto. Esta mudança de direcção e alinhamento espelha-se em faixas como “Fire Exits”, “Colossus Kid” ou, principalmente, “La Decadence” onde Joaquim Albergaria (The Vicious Five) marca também presença no seu tom sui generis e verdadeiramente estridente.

Contudo, a Zebra Dance não falta o pulso de ferro da bateria de Hélio Morais e do baixo de Pedro Cobrado, ou os ataques mortíferos da guitarra de Rui Carvalho. “Marie Antoinette” e “Dolores” disso o asseguram. Sente-se também alguma insegurança entre o que a banda foi em You Make Me Nervous e o que quer ser nesta progressão entre o mathcore e o rock, mas existem excepções. Tanto “Circus Parade” como “Eyes On The Road” encontram os If Lucy Fell no ponto mais equilibrado e avassalador de todo o disco. Esqueçam Botch, Converge, Blood Brothers ou These Arms Are Snakes; durante temas como estes o nome dos If Lucy Fell caminha sozinho e de cabeça bem erguida. “Lady Sam”, que conta com coros de vários membros dos Linda Martini e outros amigos da banda, e a bicéfala “She Lives” / “She Dies”, onde se sente o toque de Midas dos Dead Combo, acrescentam alguns tons de nostalgia e controlam o imediatismo do álbum. Com os Dead Combo os If Lucy Fell conseguem mesmo criar uma ode triunfante ao rock mutante que tem emergido em Portugal. Talvez a colaboração se repita um dia mais tarde, e se assim for, que possa ir muito além dos nove minutos e meio que ocupa em Zebra Dance.

Ao segundo álbum os If Lucy Fell demonstram claramente que passos pretendem dar até ao futuro. Mas por agora, este é um disco que consegue manter-nos interessados e irrequietos com um rock sem estribeiras e um mathcore que mais facilmente se rege pelo clima de festa que pelo rigor matemático. A música dos If Lucy Fell nunca terá uma coreografia ensaiada. A dança é espontânea, livre e ataca quando menos se espera. Não existe camuflagem alguma que permita uma fuga eficaz à violenta investida de Zebra Dance.

7/10 | Gonçalo Sítima

Anúncios

~ por hiddentrack.net em 24, Fevereiro, 2008.

 
%d bloggers like this: