Tori Amos – Boys For Pele

toriamos-boysforpelePele, figura da mitologia havaiana, é uma deusa inconstante, facilmente irascível, conotada com os vulcões. Tori Amos, ao conhecer uma lenda segundo a qual eram sacrificados a esta deusa jovens rapazes com o intuito de apaziguá-la, reviu-se nesse desejo de vingança, de devolver aos homens a dor que lhe provocaram. E assim surge Boys For Pele, um álbum de mulheres sofridas, desencantadas, por vezes revoltadas, sempre vítimas do diletantismo amoroso dos homens.

O fim de uma relação é o fio condutor do álbum, servindo de pretexto a quase todas as músicas. O que muda é a postura adoptada pela mulher. “Horses”, uma das obras-primas do álbum, vive da transição entre a timidez e apatia de quem perdeu todas as esperanças, e a assertividade de quem, por perder a esperança, se pode aventurar por novos caminhos, reencontrando assim uma nova esperança. Tal como em “Winter”, os cavalos surgem como um meio de fuga, uma forma de libertação, permitindo a busca de um novo mundo.

Também sem esperança, “Hey Jupiter” é um longo e profundo choro seco, porque não há mais lágrimas a derramar. A consciência de que se está no fundo do poço, de que nada do que se possa fazer pode salvar a relação em que tanto se investiu, gera um sentimento de desolação, de cansaço, e apenas apetece desistir, para não correr o risco de voltar a viver tudo novamente. E, esmagada pela intensidade dos sentidos, Tori suspira, geme, e sem palavras desnuda-se, dizendo tudo, sem dizer nada.

Uma mulher completamente diferente é a de “Blood Roses”, a primeira faixa do álbum a fazer uso do cravo. A raiva e o ódio são as suas forças motrizes. O desejo de fazer aquele homem ser apagado da sua vida leva-a a actos tresloucados, que não hesita em confessar. E, despudoradamente, diz: «I shaved every place where you been». A voz treme, torna-se estridente, arfa como um animal, ficando completamente toldada pelas emoções. E se esta mulher parece uma bomba relógio, “Professional Widow” põe a fasquia ainda mais alto, pois a revolta deixa de estar ligada a um acontecimento específico, para ser algo intrínseco, uma atitude perante a vida. O cravo é usado de uma forma violenta, num ambiente drum’n’base, com momentos de ritual negro, numa parafernália de instrumentos que reflectem o turbilhão de sentimentos vividos.

Num tom mais pacífico, “Caught A Lite Sneeze” deixa-se levar mais pela inveja da mulher pela qual se foi trocada e o desejo que lhe aconteça o mesmo. O cravo, a imagem de marca de Boys For Pele, mistura-se com uma bateria quase tribal, rodeada por uma atmosfera exuberante. No refrão dá-se lugar ao épico, em que uma voz cansada e desiludida canta sobre um coro angelical. E a meio da música há um momento de silêncio, que marca a passagem do cravo para o piano, dando lugar à sensualidade, à esperança de voltar a conquistar aquele homem que tanto a fez sofrer, mas rapidamente se percebe que tudo não passa de uma ilusão e volta-se ao cravo.

No meio de algumas das melhores músicas que Tori fez na sua carreira habitam outras, mais banais e desinteressantes. “Muhammad My Friend” é uma delas, não conseguindo extrapolar para a sonoridade a ousadia de humanizar figuras sagradas e de afirmar «It’s time to tell the world / We both know it was a girl / Back in Bethlehem”. “Talula” é uma música cómoda, sem nada de desafiador e que, sem o cravo, podia ser uma música imemorável música pop. O mesmo não se pode dizer de “In The Springtime Of His Voodoo”, cujo problema é sobretudo o exagero, a grande clivagem entre partes de um jazz eclético e outras de um classicismo renascentista, parecendo mais uma manta de retalhos do que uma música una e indivisível.

Entre intensos vendavais, “Father Lucifer” é uma agradável e reconfortante brisa, uma maneira muito pouco ortodoxa de relatar as sensações resultantes do consumo de droga. O diabo aparece como uma figura amigável, próxima de Jesus, um anjo dissidente que, não é necessariamente mau, mas sim humano. O refrão assinala o êxtase, a sensação de que «Nothing’s gonna stop me from floating», acrescentando ao piano a guitarra e o baixo.

Boys For Pele é um álbum intenso, extenuante e, sobretudo, longo. Longo de mais, sacrificando assim a sua qualidade final. Tori aventura-se num universo fechado sobre si próprio, muitas vezes inacessível ao ouvinte, com mensagens indecifráveis. Limadas algumas arestas, este poderia ser o álbum da sua carreira, o álbum da vida de muita gente, assim fica-se pela honra de ter alguns dos melhores testemunhos da sua genialidade musical.

8/10 | João Oliveira

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~ por hiddentrack.net em 25, Fevereiro, 2008.

 
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