Patrick Watson ao vivo na Aula Magna

Patrick Watson – a banda – tomou conta da Aula Magna por um par de horas. Do palco à plateia, os quatro músicos, encabeçados pelo homem que dá nome à banda, trouxeram-nos mais sons do lado de lá do Oceano, da terra de mar a mar, profícua em música de excelência. Assim é o Canadá, assim foi a noite de quinta-feira.

:: 13 de Março de 2008

 

Perto do paraíso.

 

O encontro estava marcado para as 22 horas, mas quem chegou à Aula Magna antes da hora foi surpreendido pela música que já ressoava em palco. O indie rock dos holandeses Voicst não se confunde com as composições de Patrick Watson e também não chama o suficiente à atenção para prender aqueles que preferiram esperar pela banda canadiana no exterior da sala.

“Close To Paradise” abriu as apresentações do álbum com o mesmo nome, surgindo atrás de uma nuvem de fumo vermelho que envolvia Patrick Watson e o seu piano. Ao lado, alinhavam-se os músicos que compõem a banda à qual deu o seu próprio nome – Simon Angell, Robbie Kuster e Mishka Stein. Avançando devagar e serenamente, “Close To Paradise” foi um excelente cartão de visita do álbum com que a banda ultrapassou Arcade Fire e Feist, arrecadando o Polaris Music Prize.

Vivendo intensamente cada nota, Patrick Watson rapidamente deixou o piano e avançou pelo palco, rota que cumpriria variadas vezes ao longo da noite. Simpático, excêntrico e demonstrando estar muito à vontade com as luzes do palco e plateias atentas, Watson conduziu a noite pelo seu universo arquitectado sob sonoridades originais, oscilando por momentos tensos de intimismo, notas suaves de sensualidade e ambientes ruidosos.

A noite teve espaço para tudo o que Close To Paradise (2006) tem para dar, mas não se limitou a ser uma reprodução ao vivo daquilo que ouvimos no registo em estúdio. Vários foram os temas revisitados, reconstruídos ao sabor do momento. E para o público que compunha simpaticamente a sala lisboeta, a noite reservou também algumas surpresas e inéditos.

“Slip Into Your Skin” foi, dentro de toda a percepção subjectiva que um concerto acarreta, o primeiro tema a arrebatar o público, levando-o a aplaudir fortemente. Ocupando a boca do palco, Watson ofereceu-nos toda a serenidade deste tema, regressando logo de seguida ao piano para a estreante “Midnight Express”. Anteriormente, tínhamos passado pela fabulosa “Weight Of The World”.

A noite foi rica em momentos de interacção com o público e o primeiro sinal disso chegou ao mesmo tempo que “The Storm”, onde o músico incitava o público fazer ressoar uma tempestade por todo o auditório. Para quebrar com este momento, seguiu-se “The Great Escape”. Sozinho ao piano, Patrick Watson presenteou a audiência com o mais belo momento da noite, num dos temas que faz de Close To Paradise uma descoberta obrigatória.

Porém, o mais insólito ficara guardado para o final e quando soam as primeiras notas de “Man Under The Sea”, todos os elementos do público se entreolham, tentando compreender onde iriam os músicos. Equilibrando-se na separação entre o Anfiteatro e os Doutorais da Aula Magna, encontravam-se Watson e o guitarrista, enquanto que o baterista ocupava o cimo da sala e o baixista se mantinha pelos lugares da frente. E assim, acusticamente, com costas de cadeiras a fazerem de bateria e mãos em concha a projectar o som, a banda interpretou grande parte do tema entre o público e terminou-o apoteoticamente em palco, levando a audiência ao rubro e fechando a primeira parte do concerto com uma ovação em pé.

No encore a excentricidade não foi menor e ao público foram dadas duas opções: um improviso espontâneo ou um cover de Erik Satie. As escolhas recaíram pela primeira, à qual teve de ser dado um nome, tarefa que coube ao público. Por entre várias sugestões, mais ou menos audíveis, surgiu um “Viva o Benfica!”, mas o nome acabou por ser “What?”, já que era a expressão que o músico mais utilizava, tentando compreender o que o público ia gritando. “What?” foi criada no instante em que se decidiu o nome, tendo direito até a letra, algo que nos revelou mais sobre o espírito criativo de Patrick Watson, que mostrava, juntamente com os companheiros, pouca vontade de sair de palco. Mesmo que o músico o tivesse negado ao início, a Aula Magna acabou por ter direito às duas opções.

A audição prévia do álbum prometia uma noite agradável, mas a experiência ao vivo foi muito para além do que se poderia prever e, de forma quase surpreendente, Patrick Watson trouxe-nos uma das melhores noites que se viveram naquele espaço nos últimos tempos.

texto: Sílvia Dias
fotos: Gonçalo Sítima
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~ por hiddentrack.net em 14, Março, 2008.

 
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