Tori Amos – From The Choirgirl Hotel

toriamos-fromthechoirgirlhotelNo vazio, incapaz de sentir, o corpo de Tori Amos flutua, viajando eternamente pelo limbo, sem esperança, sem vontade de ser salva. Os sonhos, os objectivos, a vida, tudo deixa de fazer sentido, tudo é questionado. Será que fez as escolhas certas? Será que a sua postura foi a correcta? Ou será que está a pagar no presente pelos erros do passado? E Tori flutua, imune a tudo, porque nada mais a poderá magoar.

From the Choirgirl Hotel é o purgar dos sentimentos suscitados pela perda de uma filha. Tori Amos é pela primeira vez obrigada a confrontar-se consigo mesma, com as suas crenças, e por momentos pondera se aquele aborto espontâneo não terá sido um castigo pelas suas heresias. E assim, à desolação junta-se a culpa, a cristã culpa, que a submerge em escuridão, incapaz de se distanciar do que aconteceu. “Spark” reflecte o turbilhão de emoções, com uma bateria seca e uma guitarra angustiada. A revolta para com o Criador é notória, mas ao mesmo tempo há um sentimento de impotência, uma tomada de consciência das suas próprias limitações. “She’s convinced she could hold back a glacier / But she couldn’t keep Baby alive”, reconhece finalmente.

“Black-Dove (January)”, mais marcada pelo piano e pela ambiguidade, pode ser vista como uma homenagem à filha perdida que, apesar de não ter sequer nascido, é descrita como um ser sábio, conhecedor de realidades que não conseguimos compreender. No refrão as emoções soltam-se e chora-se aquela dolorosa perda. E a tristeza dá lugar à revolta em “i i e e e”, não só não se conformando com o aconteceu, mas percebendo ainda que aquela perda levará também ao fim do amor entre os progenitores. Tori, lúcida, diz: “I know we’re dying / And there’s no sign of a parachute”, e logo se questiona «Why can’t it be beautiful / Why does there gotta be a sacrifice”. E a música continua, rude, fria, cheia de transições, de silêncios e, sobretudo, de ecos, solitários, desesperados, angustiantes.

O toque de jazz em “Liquid Diamonds”, acolhido por uma ressonância desconcertante e uns pratos insistentes, constrói uma atmosfera sombria. A voz de Tori sucumbe a intermináveis falsetes, tão delicados e cristalinos como a água, cantando a crescente insegurança que sente, mas também o mar secreto que tem dentro de si, um mar de diamantes líquidos, um ventre pronto a gerar pequenas preciosidades.

Mas se há algo de bom na dor é a capacidade de tornar uma pessoa corajosa, libertando-a das amarras e da racionalidade. Tori decide experimentar, seguir novos caminhos sonoros, permitindo que o seu piano se envolvesse com a electrónica. “Cruel”, “Raspberry Swirl” e “Hotel” são os testemunhos dessas experiências, cada uma com as suas especificidades. “Cruel” é aquilo que promete: violenta, confrontativa, rancorosa e irónica. Mas ao mesmo tempo há uma sedução hipnótica, um convite ao descontrolo. “Raspberry Swirl” é mais superficial, mais dançável, uma recriação áudio e emocional de um turbilhão. “Hotel” é a inconstante e confusa, mas também épica. Em comum estas músicas têm o reerguer, a recusa em se contentar com a desilusão e o ir à luta.

E, perto do final, Tori enterra finalmente a sua filha. “Playboy Mommy” é uma música incontornável na carreira de Tori Amos, pelas mesmas razões que “Me and a Gun”. Estas duas músicas, não sendo em termos sonoros muito interessantes, relatam de uma forma crua e honesta dois acontecimentos que marcaram Tori e isso torna-as emocionantes. “Playboy Mommy” é o confronto entre a mãe pecadora e a filha morta, um pedido de compreensão, um pedido de perdão, mas também uma jura de amor eterno. “I’ll say it loud here by your grave / Those angels can’t ever take my place”, garante Tori, sabendo que tanto ela como a filha ficarão para sempre incompletas.

From the Choirgirl Hotel marca a derrocada de uma mulher que se julgava segura de si, plenamente confiante nas suas decisões e crenças, que de repente se vê só, num mundo demasiado grande, vivendo apenas rodeada pelo eco das suas palavras. Só, chora o que perdeu. E só luta para se reencontrar. Mas por muito que lute não há para onde ir, apenas um mar de sargaço a rodeia. E ela, lentamente, flutua, na esperança de chegar a um local seguro.

9/10 | João Oliveira

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~ por hiddentrack.net em 18, Março, 2008.

 
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