The Magnetic Fields – Distortion

magneticfields-distortionQuando um artista alcança com um disco o pico máximo do que poderá ser a sua criatividade, quando esse disco é apregoado por todos a grande obra-prima de determinado artista, a partir desse momento qualquer obra seguinte que seja editada por esse artista será sempre comparada à anterior tão valorizada. Por vezes tal comparação pode ser injusta, já é demasiado difícil nos dias que correm conseguir-se criar obras magnânimes o suficiente para que seja exigido de todo e qualquer músico um rasgo de genialidade absoluta a cada disco editado.

Isto para falar do novo registo do projecto de Stephen Merritt, Distortion, que às primeiras audições é sempre posto em comparação com 69 Love Songs, obra-prima do novo milénio em formato triplo, onde o músico compôs um autêntico cancioneiro do romantismo moderno, onde o amor (o tema mais antigo abordado em canções) e todas as suas facetas e tudo o que ele abrange, directa ou indirectamente, era focado em exactamente 69 canções.

Depois deste com os Magnectic Fields Stephen Merritt editou o não muito bem recebido i, em 2004, mas passados quatro anos o compositor norte-americano volta a ter todos aos seus pés (mas não de forma tão devota como aconteceu em 69 Love Songs). A ideia de Distortion não é desconhecida, Stephen Merritt já antes tinha revelado que gostaria de um dia compor um álbum estilo Psychocandy dos Jesus & Mary Chain para os Magnectic Fields, e como o título do novo registo bem indica, assim aconteceu.

À visão romântica e aos poemas que circundam o amor de uma ironia desarmante (Jens Lekman é um perfeito exemplo de um seguidor desta faceta) já conhecida dos Magnectic Fields, agora estas características são adornadas com o ruído melodioso devedor das canções pop perfeitas de Phil Spector, tal como os Jesus & Mary Chain fizeram em Psychocandy. No final tal opção estética vem dar uma nova identidade às características das canções dos Magnectic Fields.

O disco abre com “Three-Way”, onde só é proferido o título do tema três vezes, mas que no seu instrumental conta muito mais do que seria possível produzir em palavras. E se vier à mente o nome dos Velvet Undergound não é de todo descabido. Fantástica. Depois há a doçura melódica de “California Girls”, cantada pela voz cândida de Shirley Simms (que dá voz a quase metade dos temas do disco), que apesar do seu registos pop à beira praia com distorção por todo o lado, esconde na letra um desejo sórdido de assassinar as beldades femininas que passeiam pelas praias luxuosas da Califórnia.

“Old Fools” é o tema que os The National perseguem há anos mas que ainda não conseguiram fazer, e duvido muito que o consigam. Este consegue ter um charme enterrado na escuridão sem soar aborrecido, o que não acontece com a banda mencionada atrás. Mas o ponto alto de todo o disco chega em “Too Drunk To Dream”, perfeito exemplo porque é que a lírica de Stephen Merritt tanto nos agrada, contendo este tema uma das melhores introduções dos últimos anos – “sober, life is a prison, shit-faced, i tis a blessing, sober, nobody wants you, shit-faced, they’re all undressing, oh sober, it’s ever darker, shit-faced, the moon is nearer, sober, you’re old and ugly, shit-faced, who needs a mirror, oh sober, you’re a cro-magnon, shitfaced, you’re very clever, sober, you never should be, shit-faced, now and forever” – isto antes de começar a cantar no seu estilo grave, mas alegremente, sobre o álcool como local de refúgio imperfeito.

Num ano que não está a ser particularmente cheio de grandes discos, Stephen Merritt com os Magnectic Fields vem contrariar a tendência. O ruído e o romantismo nunca fizeram tanto sentido juntos antes. Ou talvez já fizeram, mas isto é o que sentimos no momento em que acabamos de ouvir Distortion e é isso que realmente interessa.

8/10 | João Moço

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~ por hiddentrack.net em 23, Março, 2008.

 
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