Portishead ao vivo no Coliseu dos Recreios

Os Portishead voltaram a Portugal, encheram os coliseus de Lisboa e do Porto e deixaram atrás de si um rasto de momentos inesquecíveis e grandiosos. Dez anos após um interregno que ameaçou ser derradeiro, a banda britânica regressa com um novo disco e com a antiga força. O Coliseu de Lisboa rendeu-se a Beth Gibbons e aos seus companheiros. Não se esperava outra coisa. Bem-vindos novamente.

:: 27 de Março de 2008

 

Dez anos é muito tempo. Dez anos é tanto tempo que tem uma designação própria, uma década. E foi precisamente durante uma década que os Portishead estiveram recolhidos no seu sossego e silêncio. Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley deambularam por caminhos separados e o reencontro numa mesma encruzilhada nem sempre parece certo. Mas aconteceu. Este ano surge um novo álbum, simplesmente intitulado Third, e um novo fôlego naquela que foi uma das bandas mais importantes dos anos 90 e na construção de todo um género musical, o trip-hop.

Foi também uma década a que afastou a banda dos palcos nacionais. No Coliseu de Lisboa, alguns ainda se recordavam da presença dos Portishead no festival do Sudoeste em 1998, mas grande parte da audiência sentia-se virgem e vulnerável na eminência do aparecimento da banda. A espera que nunca se quis, terminava finalmente naquela noite que sempre se desejou. Em palco, os Portishead duplicam-se com a presença de três músicos convidados para dar corpo às suas canções. Geoff Barrow mantém-se na sua guitarra camaleónica e Adrian Utley desdobra-se entre a percussão e alguns efeitos electrónicos. No centro, a voz de Beth Gibbons foi mágica, inebriante, forte como um choro que não se controla. De semblante misterioso, corcovada sobre o microfone, Gibbons esteve irrepreensível durante todas as canções, durante todos os registos e amplitudes exigidos à sua voz. Mesmo sem a ponta de um cigarro a iluminar-lhe a face recolhida na sua timidez, ainda foi possível ver Beth Gibbons sorrir, agradecer entusiasticamente e até fazer alguns comentários descontraídos.

Na essência do concerto esteve o novo álbum, Third. A abertura foi feita por “Silence”, com uma mensagem em português com pronúncia açucarada (leia-se, brasileira), e desde logo seguida por “Hunter”. Num jogo de alternada intimidade entre Third e Dummy (1994), a primeira parte do concerto teve um sabor a estranheza e a nostalgia. O primeiro ponto alto acontece pela força de “Glory Box”, que colocou o Coliseu de Lisboa, esgotado, a cantar em uníssono. A primeira surpresa (se excluirmos grande parte do novo repertório) foi a interpretação em intimidade, apenas entre Gibbons, Barrow e Utley, de “Wandering Star”. Sem batida, quase acústica, esta foi uma canção que arrepiou as paredes do Coliseu e todos aqueles que comungavam no seu interior. Inesquecível.

“Machine Gun”, tema escolhido para apresentar o novo disco, conseguiu ressoar violentamente, levantando uma vaga pesada e grave sobre o público. Simples na sua repetição, inquietante na melodia de Beth Gibbons. Mas à semelhança de outros temas de Third, acaba por se tornar algo descartável, inconsistente e efémero. Contudo, algumas excepções como “Nylon Smile” e, principalmente, “Threads” conseguiram situar-se ao mesmo nível das canções clássicas dos britânicos. Não é uma tarefa fácil e somente o tempo dirá se Third conseguirá ganhar o seu lugar ao lado de Dummy e Portishead (1997) ou se servirá apenas para o arranque de uma nova fase cujos frutos ainda estão por colher.

“Sour Times”, “Only You” e “Cowboys” foram temas reservados para a ponta final do concerto e que não desiludiram. Estiveram bastante próximas das suas versões em disco, mas mais ricas e cristalinas, mais emotivas. Já no encore, “Roads” vem saciar uma sede que parecia tornar-se insuportável e a despedida foi feita em tom dançável com “We Carry On”. Beth Gibbons desce até ao público e desaparece enquanto o ritmo de marcha dirige o concerto até ao seu derradeiro final. As luzes acendem enquanto uma ovação geral, ruidosa e rendida faz afastar dezenas e dezenas de meses de espera. As lamentações dissiparam-se. Por agora.

Quanto aos A Hawk And A Hacksaw, que abriram a noite ainda o Coliseu dos Recreios se preparava para os Portishead, tiveram um desempenho festivo e interessante. As músicas embebidas nas sonoridades balcãs pouco se relacionaram com o ambiente pesado, depressivo e fracturante que se antecipava, e talvez por isso fosse um pouco surreal entrar no seu espírito, mas ainda assim houve quem aproveitasse para saltar e e abanar o corpo enquanto havia espaço. Trompete, flauta, acordeão e violino formavam o esqueleto do grupo que tocava com uma velocidade vertiginosa melodias com aroma cigano. Apetecia gritar: siga a festa! Mas não aqui se faz favor…

 

Alinhamento:
“Silence“
“Hunter“
“Mysterons“
“The Rip“
“Glory Box“
“Numb”
“Magic Doors”
“Wandering Star”
“Machine Gun”
“Over”
“Sour Times”
“Only You”
“Nylon Smile”
“Cowboys”
encore:
“Threads”
“Roads“
“We Carry On”

texto: Gonçalo Sítima
fotos: Vasco Pereira (festivaispt.org)

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~ por hiddentrack.net em 28, Março, 2008.

 
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