Jorge Ferraz – África Mecânica De Metal

África Mecânica de Metal parte do conceito de uma África, símbolo supremo da maternidade, entendida enquanto espaço onde surge a vida, que aos poucos e poucos se deixa corromper. E as máquinas dominam-na, tornando-a mecânica e transformando a terra em metal. Há nesta transformação uma dupla desfiguração: por um lado a perda da espontaneidade, a mecanização; por outro a alteração da própria essência, a metalização. O grande desafio era musicar este conceito, conseguir que os sons o reflectissem, o que se torna particularmente difícil atendendo ao facto de que Jorge Ferraz, por norma, não usa vozes.

A verdade é que há neste álbum pouco de África, entendida no seu sentido literal ou como representação da infância. “Kill Kill” e “Ferrugem nos Ritmos do Tempo” têm um leve cheirinho à música desse continente. “Supreme Love Attack” e “Lolita Sinaliza A Aldeia Aos Caçadores”, pela sua ingenuidade, podem ser consideradas como redutos da infância. Mas, exceptuando estas músicas, o conceito de África Mecânica de Metal não deixa de ser isso mesmo, um conceito.

Apesar disso o álbum oferece bons momentos. “A África Mecânica De Metal” combina imaculadamente a electrónica e a guitarra, fugindo à monotonia e à estabilidade. Nesta música tudo é devir, tudo é transformação, realizando-se uma viagem alucinante por atmosferas dispares, desde a calma até à euforia. Mas há sempre uma linha que se sobrepõe, mantendo a música unida.

“Latin Dark Fuzz”, com a colaboração de Anabela Duarte na voz, é mais atmosférica e intensa, sabendo aproveitar a voz imponente como uma mais-valia. Mas a meio Jorge Ferraz entusiasma-se e cai em exageros, tornando a música confusa. O mesmo acontece com a sedutora e misteriosa “Aranhas E Tangos”, contudo neste caso a música teima em não se deixar esquartejar, mantendo sempre uma lógica interna.

A música experimental tem um problema de base: a filtragem. Normalmente os músicos não percebem onde está a linha entre uma música inovadora e um conjunto de sons desprovido de sentido. Jorge Ferraz cai nesse erro algumas vezes, mas os exemplos mais notórios são “Kill Kill”, “Genocídio No Espaço Darfur” e “Black Deco Astronaut”. Se as duas últimas com algum trabalho poderiam ser salvas, “Kill Kill”, com a colaboração de Rodrigo Amado no saxofone, é uma daquelas músicas que nunca devia ter sido gravada pois, para além de lhe faltar uma linha melódica, ainda faz uso de arranjos electrónicos pouco inspirados. Se o objectivo era produzir um momento de desconforto, então de facto “Kill Kill” é eficaz, mas não é por isso que se torna aceitável.

África Mecânica de Metal deixa sobretudo no ar a ideia de que Jorge Ferraz é um músico com grandes potencialidades, mas que precisa de alguma contenção. Há que perceber que fazer música experimental é fácil, o que é difícil é fazer boa música experimental, ou seja, criar algo de novo, algo nunca antes pensado, sem sacrificar a audibilidade. Acima de tudo ouvir música tem de ser um prazer, mais do que um exercício intelectual, e a este nível África Mecânica de Metal ainda está a meio caminho.

5/10 | João Oliveira

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~ por hiddentrack.net em 30, Março, 2008.

 
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