Mão Morta – Maldoror

Onze anos depois de terem editado Müller no Hotel Hessicher Hof, álbum criado a partir de um espectáculo teatral que os Mão Morta desenvolveram em torno de textos de Heineir Müller, a banda bracarense volta a apostar na sua teatralidade musical com Maldoror.

Maldoror é um disco único e, no mínimo, imperdível, principalmente para quem ainda tem esperança na música portuguesa. Os Mão Morta são actualmente a única banda portuguesa que, mesmo com uma longa carreira, consegue sempre surpreender o seu público de disco para disco, que muda de pele mas não de personalidade, e é isso que os torna na melhor banda pop/rock (que definição tão vazia para um grupo como este, mas paciência) nacional.

Maldoror vem provar isso mesmo. Depois de o Theatro Circo, em Braga, ter desafiado os Mão Morta a recriarem o texto “Os Contos de Maldoror” do francês Isidore Ducasse, sob o pseudónimo Conde de Lautréamont, texto original de finais do século XIX, e o grupo ter respondido afirmativamente ao repto, com um espectáculo nesse recinto, agora o que daí resultou foi editado num álbum duplo. Edição limitada a 2000 exemplares, apenas vendidos nos espectáculos do grupo e no site da editora da banda, Cobra, este disco é uma maravilha só de se ver, repleta de ilustrações e com todos os textos recriados, como se se tratasse de um pequeno livro.

Ao ouvirmos Maldoror a vontade de presenciar o espectáculo dos Mão Morta cresce ainda mais. Adolfo Luxúria Canibal vai recitando os textos aterradores e sombrios que recriou a partir de “Os Contos de Maldoror” pungentemente, com uma sensibilidade dramática que de conto para conto nos vai assustando cada vez mais mas e, ao mesmo tempo, prendendo-nos a este mundo terrível e surreal, que mais parece que estamos a viver o Inferno na Terra.

Musicalmente, os contos são adornados de um minimalismo absurdo (não é, de todo, depreciativo), onde percussões temíveis, electrónicas minimalistas (que adensam o ambiente pesado e dramático dos temas) e guitarras que se mutilam vão criando a perfeita banda-sonora para todos aqueles contos temíveis.

Como sempre, é Adolfo Luxúria Canibal a figura central de todo o registo, é na sua interpretação e na sua voz cavernosa que tudo se concentra e, mais uma vez, volta a surpreender-nos de alguma forma. É da sua autoria a adaptação do texto do Conde Lautrémont e ao ouvirmos o disco vemos como o universo destes contos se liga quase umbilicalmente ao universo que a voz dos Mão Morta foi criando ao longo dos anos.

Maldoror é o décimo registo do grupo bracarense e por todos os motivos enunciados é obrigatório ouvi-lo. Já há muito tempo que não se ouvia um registo nacional de tal envergadura e, por isso mesmo, é de aproveitar. Por tudo isto é de não perder os poucos espectáculos que a banda vai desenvolver pelo pais nos próximos tempos em torno deste novo disco.

9/10 | João Moço

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~ por hiddentrack.net em 30, Março, 2008.

 
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