Kasabian – Empire

O segundo álbum é um momento definitivo na vida de uma banda, permitindo destrinçar entre as bandas que vieram para ficar e as que cairão no esquecimento. Há por isso sempre uma atmosfera de nervosismo e de querer ir mais além, o que por muitas vezes leva ao fracasso. Tem de haver um grande equilíbrio no segundo álbum: por um lado, a banda não se pode afastar excessivamente do seu estilo original, sob pena de marginalizar as pessoas que já ouviam a sua música e que gostavam dela; mas por outro lado, não se pode também limitar a fazer mais do mesmo, a apresentar uma nova versão do primeiro álbum, sob pena de serem catalogados como uma banda monótona e criativamente limitada.

Perante um cenário tão periclitante e que muito facilmente pode resultar num flop, os Kasabian conseguiram o que parecia ser muito difícil, superando a qualidade de Kasabian. Empire é mais consistente, mais versátil, mais trabalhado, um álbum de uma banda genuinamente diferente e que não precisa de se pôr em bicos dos pés para se distinguir dos outros. O single de lançamento, “Empire”, é exactamente aquilo que deveria ser: uma música dinâmica, energética e dura, que se aproxima do ouvinte como um helicóptero prestes a pousar, que levanta em seu redor uma enorme poeira. Há uma profusão de sensações, uma sobrecarga sonora que nunca se torna confusa, graças a uma produção cuidada e muito equilibrada.

Mas Empire não se fica por aí e “Shoot the Runner”, crua e máscula, mantém a fasquia alta. A soberba com que se diz “I’m a King and she’s my Queen” é perfeitamente corroborada pelo som, deixando no ar uma grande carga instintiva, uma sede de viver. A mesma sede que se encontra em “Me Plus One”, um desejo desesperado de amar e ser amado, sempre com um cheirinho hippie no ar.

“Sun-Rise-Light-Flies” afasta-se do carnal e centra-se mais no metafísico. O sentimento de transcendência é inegável. Há no ar uma aura a misticismo, uma celebração da vida a que o coro e violinos só vêm acrescentar uma carga épica. Num plano oposto “By My Side” é sobretudo um convite à manifestação, um alerta para as manipulações que as pessoas muitas vezes são alvo, em nome de valores religiosos que não são mais do que um disfarce. E assim se diz: ”No retaliation said the poet to his kin / Separate the idols and commit your deadly sin / Love is put aside while you finish what you start / I collect the numbers, you protect my heart”.

Se as músicas referidas já são motivo de deleite e por si só chegariam para fazer um álbum fantástico, os Kasabian ainda oferecem “Stuntman” e “Doberman”, para que não restem nenhumas dúvidas sobre a excelência de Empire. “Stuntman” envereda por terrenos mais electrónicos, mas dando sempre grande destaque à bateria rude, e assim a música vai crescendo de intensidade até ao clímax no refrão. “Doberman” é o momento decisivo, o grito de revolta por excelência. “They never had no future / They never had no past” são as palavras de ordem de uma geração desencantada, sem valores, sem projectos. E porque o que interessa é a mensagem e a melodia, pouco mais se usa do que a guitarra e a bateria.

Empire é o álbum de confirmação de uma das melhores bandas no panorama actual. Os Kasabian não copiam ninguém, não são parecidos com ninguém. Simplesmente aproveitam bem as suas influências dos anos 70 e, fazendo uso das potencialidades tecnológicas, dão-lhes uma roupagem moderna, com arranjos electrónicos subtis mas muito eficazes.

9/10 | João Oliveira

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~ por hiddentrack.net em 5, Abril, 2008.

 
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