David Fonseca ao vivo no Coliseu dos Recreios

O palco do Coliseu não é novo para David Fonseca, mas a noite de ontem soube a estreia. Pela primeira vez a solo, por ali se recordaram os sucessos passados e viveram-se intensamente os temas promissores de Dreams In Colour. Entre camas, bolas de espelhos e bolhas de sabão, bailarinos e mariachis, David Fonseca trouxe-nos aquilo a que ele chama “o seu mundo”.

:: 12 de Abril de 2008 

 

Os sonhos do músico que queria ser agente secreto

 
A noite começou cedo e à hora marcada. Com uma pontualidade rigorosa, Rita Redshoes, a nova menina dos olhos da crítica nacional, subiu ao palco para apresentar o seu estreante Golden Era, a um público menos conhecedor e entusiasmado do que se previa à partida. Menos não significa pouco, atenção, e ninguém ficou indiferente às já muito rodadas “Dream On Girl” e “Hey Tom”, alegremente interpretadas. Louva-se o esforço de Redshoes para interagir com um público imenso, nesta que é a sua primeira aventura em grandes palcos – como actriz principal –, mas as pausas entre temas iniciais pareceram alongar-se para além do desejável, quebrando um pouco o “calor” que a apresentação poderia ter proporcionado. O tempo tratará de limar as arestas. Na memória ficam os seus versos a entoar insistentemente e a promessa de um futuro promissor, a julgar pela recepção que tem tido.

Depois de um longo “intervalo”, apagam-se as luzes e quando o público esperava ver entrar David Fonseca, acendem-se os ecrãs para nos mostrar um vídeo, à boa maneira dos “webisódios” a que o músico já habituou os seus fãs. Em tom confessional, vemos David Fonseca naquilo que parecem ser os preparos para entrar em palco, leia-se a vestir-se, e estranhamos o poncho e chapéu mexicano que coloca por cima da sua habitual vestimenta. Quando todos se preparam para o ver entrar em palco em tais preparos, eis que surgem quatro verdadeiros mariachis! É a eles e à sua alegria esfusiante que fica entregue a abertura do concerto. O que vinha a seguir não deveria surpreender aqueles que já estão familiarizados com Dreams In Colour: David Fonseca e a banda do costume ocupam os seus lugares e dão-nos as boas vindas com “4th Chance”. Logo de seguida, surge “Our Hearts Will Beat As One”, eufórica como de costume, contagiou todo o público que começou a dançar logo desde início. Enquanto isso, iam caindo sorrateiramente lanternas do tecto, ficando suspensas sobre o público.

A explicação para estas pequenas “invasoras” surgiria no final do segundo tema, com David Fonseca a empunhar também uma lanterna. Era mais uma vez Tim Buckley em palco, através da sua “Song To The Siren” que abre caminho, arrepiado, para “Who Are U?”. Depois do single do segundo álbum veio o single do terceiro. “Superstars II” anda nos lábios de todos, em forma de assobio, e no Coliseu não foi excepção. Com o seu término o pano cai e vemos mais um “webisódio”. A fórmula viria a repetir-se, contribuindo para que o concerto se assemelhasse a uma produção teatral em que somos todos envolvidos, sem darmos conta.

A pausa é curta e “Silent Void” entra rapidamente em palco, com David Fonseca agarrado a um megafone que insistia em não funcionar convenientemente, rodando em cima de uma plataforma giratória. “Silent Void” é eléctrica, contagiante e a energia do músico multiplicou-se em cada um dos presentes no esgotado Coliseu dos Recreios, que responderam prontamente ao apelo vindo do palco. O momento seguinte foi de recobro. David Fonseca senta-se no cimo do piano e conversa um pouco, como já é seu hábito. Vai dedilhando a guitarra e dela arranca uma introdução a “Still Loving You” dos Scorpions, que serve de abertura à música “da senhora da limpeza”, “Kiss Me, Oh Kiss Me”. Este foi o ponto de partida para o momento intimista da noite, toda ela decorrente num patamar de euforia, quebrada pelas interrupções pontuais para os vídeos.

Foi uma trilogia. Depois de “Kiss Me, Oh Kiss Me”, aplaudimos uma vez mais a tal música que está na génese da carreira a solo do leiriense – “Someone That Cannot Love” –, com direito a coro em uníssono por parte do público, e houve mais uma vez espaço para ovações, desta feita à teclista Rita Pereira (Redshoes, na primeira parte do concerto), em “Hold Still”, com os protagonistas sentados de costas um para o outro. Não fosse a passagem por “Rocket Man (I Think It’s Going To Be A Long, Long Time)”, do britânico Elton John e o momento intimista ter-se-ia prolongado, com “Orange Tree” (nome provisório), que apesar de inédita, soa-nos muito familiar, logo seguida de “I See The World Through You” (introduzida pela “Space Oddity” de David Bowie).

O que se seguiu ultrapassou todas as barreiras do espectável, chegando quase a ultrapassar os limites do kitsch. A surpresa é inevitável. O pano negro caiu, separando David Fonseca da restante banda e foi assim, solitário, que o músico iniciou “This Raging Light”. De repente, o pano subiu e para além de uma quantas bolas de espelhos, tínhamos seis bailarinos em fatiotas de Lycra, ao melhor (pior?) estilo dos anos 80, a dançar em cima do piano e de colunas. O Coliseu uniu-se em gargalhadas e o olhar atónito é partilhado por muitos. Depois de um momento destes é necessária uma pausa, e David Fonseca aproveita para mais dois dedos de conversa, onde descobrimos que afinal sempre quis ser agente secreto, num momento de humor característico do músico. Dos tempos nessa profissão sobrou-lhe o telefone, que estava em palco desde o início da noite, que fez entrar pela sala a nostálgica “Video Kill The Radio Star”, intervalada pela igualmente electrizante, e talvez o seu maior hit, “The 80’s”. As estruturas do Coliseu estremeceram certamente.

“Adeus, Não Afastes Os Teus Olhos Dos Meus” encerrou a primeira parte do concerto e foi seguida de um já esperado encore (ou alguém acreditava que o concerto iria terminar por ali mesmo?). O medley pop que se seguiu é que fugiu a quaisquer expectativas, mas momentos previsíveis era algo que já tínhamos desistido de esperar daquela noite.

Depois de um desabafo acerca das pessoas e das suas histórias por detrás das músicas, principalmente dos grandes hits pop, facilmente cantarolados, David Fonseca brindou-nos com pequenas amostras de “Wannabe” das Spice Girls, “Toxic” da Britney Spears, “Man Eater” da Nelly Furtado, “Can’t Get You Out Of My Head” da Kylie Minogue e o mais recente “Umbrella” da Rihanna, que foi, de resto, o tema mais acompanhado pelo público. Tudo isto interpretado num tom triste e melancólico, muito diferente dos originais.

“Angel Song” chegou logo depois, trazendo de volta os Silence 4, a adolescência e toda a complexidade emocional que a acompanha. De uma ponta a outra, do primeiro ao último verso, o tema cantou-se tanto na audiência como no palco. Porque a música tem dessas coisas. Liberta-se do criador, torna-se também propriedade de quem a ouve, de quem a recebe e integra em si, como verdadeiramente sua.

Ia já a noite longa e ainda as surpresas não tinham acabado. O segundo e último encore surgiu com David Fonseca deitado numa cama, aparentemente de pijama. Soltavam-se bolhas de sabão pelo Coliseu, enquanto ouvíamos “Dreams In Colours”. O músico despediu-se, “Lisboa, está na minha hora”, e adormeceu. Depois de toda uma viagem pelo imaginário desperto de David Fonseca, tinha-nos sido dada permissão para entrar também no universo dos seus sonhos. Termina então o concerto, com um David Fonseca vestido de soldadinho de chumbo, acompanhado pela banda igualmente mascarada, cantando-nos “Together In Electric Dreams” de Philip Oakey e, mais uma surpresa, “A Little Respect” dos Erasure, num cover completamente diferente daquele que já ouvimos de David Fonseca em sonhos passados.

Foi um passo ambicioso e dado com a destreza de quem carrega já a experiência de uma década. David Fonseca habituou-nos à surpresa e nesta noite ultrapassou tudo o que poderia ser previsto. Não se poderia esperar uma simples apresentação de “Dreams In Colour”, que de resto já tem vindo a ser feita, mas não nos era possível prever que estaríamos perante uma noite com tamanhos requintes de teatralidade. Há que arriscar e o saldo foi positivo.

 
Alinhamento:
4th Chance
Our Hearts Will Beat As One
Song To The Siren/ Who Are U?
Superstars II
Silent Void
Still Loving You/ Kiss Me, Oh Kiss Me
Someone That Cannot Love
Hold Still
Rocket Man (I Think It’s Going To Be A Long, Long Time)
Orange Tree (provisório)
Space Oddity/ I See The World Through You
This Raging Light
Video Kill The Radio Star/ The 80’s
Adeus, Não Afastes Os Teus Olhos Dos Meus
encore:
Wannabe/ Toxic/ Man Eater/ Can’t Get You Out Of My Head/ Umbrella
Angel Song
All Day And All Of The Night
encore:
Dreams In Colour
Together In Electric Dreams
A Little Respect

texto: Sílvia Dias
fotos: Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 13, Abril, 2008.

 
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