Tori Amos – To Venus And Back

toriamos-tovenusandbackApós From the Choirgirl Hotel, um álbum emotivo, aguerrido e virado para a acção, Tori Amos foi criando um conjunto de canções, sem ter em mente a construção de um álbum. Assim, aos poucos e poucos, de forma inconsciente, To Venus and Back foi ganhando forma, até que a sua existência se tornou óbvia e incontornável. Tori abandonou então a ideia de editar uma compilação de b-sides e decidiu lançar um álbum de originais, acompanhado de um álbum ao vivo, com músicas marcantes no seu percurso musical. Há por isso em To Venus and Back uma ponte entre o passado e o presente, mas também o encerrar de um ciclo.

O primeiro CD é uma extensão do experimentalismo electrónico que Tori iniciou em From the Choirgirl Hotel. “Bliss” começa com uma mensagem estranha: ”Father, I killed my monkey / I let it out to / Taste the sweet of spring”. O piano, puro e inocente, mistura-se com batidas electrónicas sujas e com ressonâncias que dão à música um tom intenso, que apenas se aligeira no refrão. “Lust” joga também com a dicotomia pureza/sujidade no som, mas de uma forma mais soturna em envolvente, assumindo Tori uma voz etérea que se desdobra em ecos.

“Josephine” inspira-se em Napoleão e na sua mulher, recriando um triste reconhecer de uma derrota, da derrocada de um sonho. São os pequenos detalhes que tornam esta simples música num momento especial, como o separar o som do piano do da bateria, fazendo com que cada um surja apenas de um lado, com a voz no meio a funcionar como elemento de união. E também a maneira como Tori brinca com a palavra “impossible”, reminiscente do espírito desafiador de Napoleão e da forma como questionava o impossível.

O grande momento deste álbum é a épica, desconcertante e indescritivelmente emocionante “Dãtura”, nome de uma planta alucinogénia que, quando usada em excesso, pode matar. Trata-se por isso de uma música sobre o perigo de ultrapassar os limites. Mas ao mesmo tempo há um ambiente bíblico, com referência à divisão de Canaã, a terra prometida. No fundo é uma forma de pisa o risco, como se o Homem usurpasse o poder de Deus e se atravesse a pôr e dispor sobre uma terra por ele considerada sagrada. A primeira parte da música é muito simples, muito centrada no piano e na bateria, sons que servem de pano de fundo à leitura que Tori faz de uma lista de plantas que tem no seu jardim. E aos 3 minutos e 39 segundos a música pára e metamorfoseia-se. Uma batida abafada assume o controlo, rodeada de arranjos electrónicos misteriosos e de uma voz que repete ”Dividing Canaan” muitas vezes, incontáveis vezes, como se não conseguisse acreditar que o Homem fosse capaz de tal ousadia. Aos poucos e poucos vai surgindo a bateria e outros discretos arranjos electrónicos. E assim se passam 5 minutos de absoluta perfeição.

O segundo álbum, que apresenta algumas músicas de Tori Amos ao vivo, tem 3 motivos principais de interesse: “Cooling”, “Sugar” e “Purple People”, faixas que apenas foram editadas como b-sides. A beleza de “Cooling” reside no piano e no poder dos silêncios, para além de ter um dos mais emocionantes refrões escritos por Tori. “Sugar” é arrebatadora, capaz de emocionar a mais fria das pessoas. A voz de Tori ganha uma dimensão metafísica, oscilando entre um registo grave e intensos agudos, com improvisos geniais pelo meio. “Purple People” é menos interessante, mas tem também os seus encantos.

To Venus and Back é um dos álbuns mais herméticos de Tori Amos, repleto de letras indecifráveis, de cenários em constante transformação. Não consegue ser tão apaixonante com “From the Choirgirl Hotel”, mas é igualmente genial. E com este álbum Tori Amos termina a sua incursão pela música electrónica, optando no futuro por um regresso às origens.

9/10 | João Oliveira

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~ por hiddentrack.net em 22, Abril, 2008.

 
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