Editorial

A compra do primeiro álbum. Este é um momento que todos nós – aqueles que gostam de música incontrolavelmente – recordamos com bastante nostalgia, seja qual for a distância temporal que o separe do presente. Aquele movimento independente e suculentamente egoísta de comprar um álbum pela primeira vez – o desvirginar do corpo amante de música.

A escolha poderá parecer, agora, volvidos sabem-se lá quantos anos, perfeitamente ridícula. Aliás, esse mesmo álbum, esse primordial começo, poderá estar numa prateleira alheia, num caixote esquecido ou perdido pelo circuito dos usados – o conteúdo em si conta muito pouco; é o ritual iniciático que permanece. E embora os tempos mudem e o acesso à música se expanda e diversifique, nada se compara ao acto de comprar um trabalho original, seja ele em que formato for. Chegar a casa, colocá-lo na aparelhagem, percorrer o folheto atentamente, reparar no tipo de papel, em cada pormenor do artwork, verificar se existem gralhas ou erros de impressão que singularizem ainda mais aquela cópia, seguir as letras quando possível, e depois, colocá-lo no seu lugar alfabético ou preferencial na estante: mais uma cor para a palette pessoal.

Se algo desta introdução vos for familiar então compreenderão o porquê da criação deste site de música. Agarrada à íntima adoração por música vem o querer saber mais e mais e mais: notícias, curiosidades, pormenores técnicos, opiniões e dissertações, tudo o que for possível consumir intelectualmente e que possa, de alguma forma, intensificar a experiência de ouvir um álbum, uma música, um refrão ou um mero acorde.

Adicionem-lhe alguma formação académica no âmbito da Comunicação Social, motivação pessoal partilhada com outros e alguma necessidade de ter, em português, um local que consiga cobrir alguns quadrantes da música actual com pouca visibilidade mediática e terão a causa da existência do hiddentrack.net.

Este é um projecto que se move principalmente através dos seus colaboradores e do seu núcleo duro. As escolhas feitas, as opiniões pronunciadas e os destaques efectuados estarão sempre intimamente ligados à personalidade de cada um, sem menosprezar, no entanto, o que é globalmente relevante na actualidade musical. Desprovido de qualquer ambição comercial ou de expansão incomensurável, este será um site aberto a todos aqueles que consigam captar o espírito implícito ao seu conteúdo e se sintam impulsionados para contribuir.

E depois termina a última faixa e o CD continua a rodar, em silêncio, sem regressar ao início comandado pelo repeat… já se sabe o que aí vem: um verdadeiro encore na nossa sala, um pequeno segredo que aguardava ser descoberto, um último pedaço que se supunha inexistente, a hidden track. O hiddentrack.net.

Gonçalo Sítima
agosto.2005

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